quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O conto de fadas da intermodalidade com carro

Tá difícil entender o papel do carro no trânsito, na sociedade? Vos ofereço uma analogia bastante simplória: o carro é o rodízio de carnes. Ou pode ser de pizza ou sushi também.

Intermodalidade carro + churrasco
Você vai à melhor churrascaria da cidade e paga 80 reais por um rodízio de carnes. Então você senta à mesa, e começam a chegar as carnes. Mas em algumas ocasiões, o garçom, ao oferecer a carne, te avisa que "essa é paga por fora, amigo!". WTF! "Tá pensando que eu sou otário, é?". Você paga 80 reais all included, e o cara te vem com uma opção paga por fora pra você comer a mesma coisa!

Pronto! Se você entendeu esse absurdo de pagar por fora ao entrar num rodízio, você vai entender porque a intermodalidade com carro é uma lorota que a indústria automobilística quer nos empurrar goela abaixo. Os motivos são óbvios. Com as cidades abarrotadas de automóveis, e com a velocidade de vendas maior do que a velocidade de construção de novas vias - ÓBVIO! Ou você acha que sempre tem espaço pra alargar ruas? -, o transporte individual motorizado tem sido tratado como um vilão do trânsito, e essa vilania acaba de certa forma atingindo por tabela os motoristas. Devemos distinguir quem é o quê nessa história. O carro é realmente o vilão. Qualquer política pró automóvel tira espaço de todos os outros modais, num custo elevado de espaço para transporte de pouca gente, e muitas vezes inclusive tirando espaço de convivência, de uso da cidade e até de habitação. Temos no Recife prédios de 30 andares de apartamentos com mais 4 andares para estocagem de veículos.

Mas o motorista não é o vilão. O reprovável é o uso do automóvel diariamente, como bem essencial. A indústria automobilística  nos ensinou isso e engolimos como patinhos.

Integrar o carro ao transporte público? Já calculou?
Sobre a intermodalidade especificamente, e o exemplo do rodízio... você paga 30 mil reais, talvez 80 mil reais, 200 mil (!!!) num carro, pra ganhar um pacote de liberdade - esse benefício já era, tá preso no engarrafamento -, conforto, individualismo, ar condicionado, música e até DVD pra motorista (proibido, mas vem sendi=o fabricado), e vem o presidente da associação de fabricantes de automóveis, ANFAVEA, a associação de quem te vendeu o automóvel, e te diz que a solução é deixar o seu amado carro, com todas essas vantagens,  num estacionamento, pra pegar um ônibus ou metrô. É pagar 80 reais no rodízio, não comer a picanha e ainda pagar 10 reais por fora! Tive carro por muito tempo. Te conheço, amigo. Você NÃO vai deixar o carro num estacionamento pra pegar outro transporte. Mas a ANFAVEA finge que te conhece mais, e diz que você vai fazer o que sabemos que não vai. Leia:

Retirado do site Notícias Automotivas
Vamos fingir por alguns minutos que acreditamos na intermodalidade com automóvel, e que vamos nos dispor a deixar o carro longe, num estacionamento, e pegaremos - e também pagaremos! - um ônibus ou metrô pra descer a 1000 metros do trabalho e ainda andaremos 10 minutos até lá, em vez de ir direto de carro diretamente para o nosso destino. Vamos então partir para uma matemática básica, com conceitos de porcentagem e área.

Temos em números atuais até este mês de agosto de 2014, na Região Metropolitana do Recife, segundo o site do Detran de Pernambuco, um total de 1.211.208 veículos. Tentando ser mais justos ainda com o cálculo, vamos desconsiderar a coluna de "Outros" e as motos, que apesar de figurarem como vilãs em outras questões como segurança e poluição, ocupam pouco espaço estacionadas. Vamos excluir também os veículos de carga, pois é pouco comum alguém usar caminhão como intermodalidade. E obviamente os ônibus, que têm a função de fazer a intermodalidade. Nos sobra apenas os 718.749 automóveis. Toda essa explanação serviu pra quê? Pra nada. Pois no site da CTTU já temos a informação supostamente correta. Desses mais de 718 mil veículos, circulam pelas ruas do Recife diariamente, cerca de 620 mil veículos. Tá explicado porque quando temos greve de ônibus, ao contrário do que algumas pessoas "pensam", o trânsito não melhora sem os ônibus. Ele piora e muito, pois existe gente que deixa os outros quase 100 mil carros em casa diariamente pra usar o transporte público, ir de bicicleta ou caminhando. Durante a greve, estes se vêem forçados a usarem o carro.

Então já temos um número base: 620.000 veículos circulam diariamente pelo Recife. Se a solução deve incluir necessariamente a intermodalidade com automóvel, como diz o isento presidente da ANFAVEA - Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores -, precisamos antes definir qual a redução necessária do número de carros nas ruas, para termos um trânsito com fluidez. Existe um consenso razoavelmente generalizado de que a grande piora no trânsito ocorreu com a redução do IPI para automóveis, benefício fiscal iniciado em 2008. De 2007 para 2014, tivemos um aumento na frota de carros da Região Metropolitana de 44,12%. Vamos realmente considerar, apesar de haver controvérsias, que o trânsito na capital pernambucana era uma maravilha em 2007. Então podemos chegar a um segundo número. Para deixar o nosso trânsito azeitado, fluindo bonito que nem o BRT na Avenida Caxangá e a Via Mangue ontem, hoje e sempre, devemos diminuir em 44,12% o número de carros circulando nas ruas, ou seja, arranjar estacionamento nos terminais de metrô e ônibus da cidade para que 273.544 motoristas estacionem seus carros e sigam em outros modais. Afinal, todos eles vão se dispor a isso, não é?

A gente pode até destrinchar aqui outras questões, como pensar em como seria todos os 273.544 veículos, ou pelo menos boa parte deles, se dirigindo todos em horário de pico a pontos específicos da cidade (os tais terminais), ou mesmo refletir no que mudaria no trânsito da casa das pessoas até os terminais com essa medida sensacional proposta pela ANFAVEA.

Mas vamos nos ater aos estacionamentos. Precisamos achar lugar para estacionar 273.544 automóveis! 
Lembrando de grandes estacionamentos existentes na cidade, um que se destaca é o do Shopping Center Recife. O centro de compras tem 180.000m², sendo que mais de 120.000m² são exclusivos para estacionamento e circulação de veículos. Quase 70% da área! Então vamos colocar pelo menos uns 20% desses 273.544 carros num estacionamento do tamanho do shopping, repetir isso em 5 pontos da cidade e tá tudo resolvido. Vejamos...

No site do Shopping Recife, temos a informação de que nesses mais de 120.000m² só cabem 5800 carros. Para estocarmos todos os dias os 273.544 necessários para reduzir o volume de carros nas ruas em 44,12%, precisaríamos de 47,16 estacionamentos com a mesma área que o estacionamento do shopping. WOW!!!! E temos essa área disponível?

Capturei no Google Maps um printscreen do Shopping Recife e outro do odiado, temido, e evitado por muitos Terminal da Macaxeira, ambos na mesma escala. Agora eu peço que você veja a imagem abaixo, comparando o tamanho do shopping e do terminal, e deduza, exercite uma elucubração: é possível termos 47 terminais de integração no Recife e região metropolitana - muito mais do que temos hoje -, cada um com um estacionamento do tamanho do Shopping Recife?

O estacionamento do Shopping Recife, excluindo-se a área de lojas: 12 terminais da Macaxeira.

E se transportar a lógica para a outra solução cantada por muitos, dos 17 edifícios garagem sugeridos em 2012 pela gestão anterior e ainda considerados como opção pela gestão atual, o problema é o mesmo: falta de espaço para estocagem de um grande número de veículos. A proposta dos 17 edifícios garagem criaria cerca de 14500 vagas segundo notícias de 2013 (o edital de 2012 fala em 10.000 vagas). São 17 edifícios exclusivos para estocagem de veículos, tirando 2% de carros estacionados nas ruas, e criando 2% a mais de vagas mais seguras, cobertas, estimulando o uso do carro. DOIS POR CENTO é o aumento da frota de veículos na Região Metropolitana em 5 meses, para ser absorvido por edifícios garagem que demorariam anos para serem construídos.

Podemos terminar este artigo com uma conclusão básica, apontando para uma solução já adotada com 
sucesso em várias cidades do mundo. O único lugar onde o carro já tem vaga garantida e demanda pouco espaço é na garagem de casa. Há ainda alguma inteligência, em colocar estacionamentos em estações de trem, aeroportos ou qualquer outro transporte entre cidades, pois a demanda é muito menor do que a demanda diária por mobilidade e não há competição forte entre o carro e esses modais. É restringindo estacionamento, e não criandp vagas, que se melhora a mobilidade. Mas e a bicicleta? Onde entra nessa história? Entra que 5800 carros demandam esse espaço todo no Shopping Recife, e 5800 bicicletas ocupam 12 vezes menos espaço: todas caberiam no Terminal da Macaxeira. Você resolve o problema da intermodalidade e ainda tira 5800 carros da rua, liberando espaço nas vias para o automóvel do idoso que não consiga mais pedalar ou andar confortavelmente, para o cadeirante e para o próprio transporte público.

É tudo tão óbvio quanto a facilidade de contar a quantidade de carros e a dificuldade de contar as bicicletas nessa foto da estação de Nijmegen, em Copenhagen. Óbvio como o fato de que quem sai de carro de casa dificilmente irá fazer intermodalidade, pois concentrou todos os seus esforços e gastos num só modal. O resto... é tudo mentira!
Estação de trem de Nijmegen, Copenhagen.
Foto retirada do Instagram de Mikael Colville-Andersen.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

10 perguntas que você vai ouvir quando vender o seu carro

Sonho de criança. Ainda bem que a gente cresce e evolui.
Desde pirralho, sonhamos com a possibilidade de ter um carro e conquistar nossa independência, nossa capacidade de ir e vir pra onde quisermos, quando quisermos. É a liberdade da maioridade, alcançada ao se completar 18 anos. Existe um roteiro padrão para o filme que é a nossa vida, que vários de nós seguimos obedientemente, com poucas alterações: ir pra Disney - me desculpem, eu sei que forcei, mas foi só pela piada -, passar no vestibular, se formar, ter um carro, arrumar um emprego, casar, ter filhos, quem sabe netos, e morrer. Toda vez que você resolve rasurar esse roteiro, o senso comum acha que você enlouqueceu, que quer apenas aparecer, ou que é um excêntrico. Então irão pipocar perguntas de todos os lados em cima de você por causa desse seu comportamento fora da curva. Se deseja riscar ou pular alguma dessas etapas, ou mesmo trocar a ordem delas, se prepare para ouvir.

Casar e não ter filhos? Ter filhos sem casar? Não fazer vestibular? Arrumar emprego decidindo não se formar? Casar sem ter um carro? Ter filhos sem ter um carro??? Como pode?
Há respostas pra tudo nessa vida. Mas meu irmão... como pode a pessoa viver sem carro? Nessa as pessoas simplesmente não acreditam e não entendem. E tem gente que faz uma pergunta hoje, você responde, e parece que não entra na cabeça, semana que vem pergunta de novo "vai comprar quando seu próximo carro?". Me lembro de um dos interessados no meu carro, meu saudoso Fox 1.6, que eu disse na garagem pra ele que ia ficar sem carro e ele me perguntou "por quanto tempo?". Disse que não sabia e que não pretendia comprar outro, e depois de dois minutos de prosa ele perguntou "vai comprar um carro maior?". Percebam como ter um carro é algo tão ou mais importante que respirar pra muita gente, de forma que não conseguem enxergar as opções de vida sem o automóvel.

De tanto ouvir perguntas, resolvi compilar as mais comuns nessa lista, pra você mandar o link pra quem te perguntar, e assim não ter que ficar repetindo dezenas de vezes a mesma resposta. Mas claro, se você acha isso divertido, ótimo!

AS 10 PERGUNTAS QUE VOCÊ VAI OUVIR QUANDO VENDER O SEU CARRO (principalmente se for se locomover de bicicleta)

1. Vai comprar qual agora? Quando vai comprar outro?
Seus amigos não acreditam que você vai viver sem carro, apesar de 80% da população se locomover de outras formas. Aguarde, meses depois irão perguntar de novo quando você vai comprar outro carro. Eles custam a acreditar mesmo, acham que você está economizando pra comprar outro.

2. Você está com dívidas? Tá precisando de dinheiro? Tá liso? Na pindaíba?
Essa é das perguntas mais engraçadas. Ter um carro é uma necessidade tão forte, e se locomover sem ele é algo tão humilhante pra muita gente, que vendê-lo é considerado um último recurso para pagar as dívidas. Você antes vende o rim. Se ainda assim sobrarem dívidas, aí você vende o carro. Conheço algumas pessoas que venderam o carro pra se locomover de bicicleta. Homens, mulheres, mais jovens, mais velhos, de classes sociais diferentes. Todos têm gastado mais dinheiro com viagens, com bicicleta, com diversão em geral, e afirmam ainda sobrar um bom dinheiro por mês pra investir em previdência privada ou em algum projeto do futuro. Alguns sádicos venderam o carro e além de engordar a poupança para próximas etapas da vida - casar, ter filhos, netos, envelhecer -, compram ações da Petrobrás, torcendo pro governo parar de mimar os motoristas e aumentar o preço da gasolina.

3. Como você vai fazer feira? Como vai ao supermercado?
As opções existem mundo afora. E começarão a aparecer
nas cidades brasileiras à medida que elas forem se adaptando.
Isso realmente seria um problema, não fosse a resposta à pergunta nº 2. Com uma economia, dependendo do modelo do veículo vendido, de cerca e R$1.200,00 por mês (seguro, IPVA, combustível, estacionamento, depreciação, etc), dá pra você fazer compras naquele mercado de gente rica perto de casa, a pé ou de bicicleta. Se a família for grande e você morar numa cidade grande, terá certamente ao seu alcance um desses grandes mercados de compras no atacado. Vai de ônibus, e volta com as compras de táxi, uma vez no mês. E o resto compra de vez em quando no tal mercado de gente rica. Ou come mais vezes fora de casa, que ainda assim vai sair mais barato do que esses 1200 reais - no mínimo! - economizados, e assim vai precisar comprar menos coisas pra levar pra casa.

4. E se passar mal, se precisar ir ao hospital?
Amigo, se você passar mal e estiver em casa, em condições de dirigir, não tá tão mal assim, pega um táxi e vai pro hospital. Não vai precisar perder tempo pra estacionar no hospital nem se arriscar em passar muito mal enquanto dirige. Dos hospitais que eu me lembro no Recife, todos têm estacionamento lotado, ou não têm, ou é do outro lado da rua, ou longe da emergência. Pega o táxi e pára na porta. Se estiver na trabalho e passar mal, vai até o estacionamento pegar o carro? Conseguiu estacionar na porta do trabalho? E vai dirigindo mesmo sabendo que pode piorar a qualquer momento? Não minta! Em qualquer situação o táxi geralmente ganha ou alguém conhecido vai te levar. Quando o táxi não ganha, perde por pouco. E pra terminar tirando onda... quem só vive de carro pra lá e pra cá tem mais problemas do coração, de obesidade, estresse. Vai passar mal mais vezes do que quem se livrou do engarrafamento. Onde já se viu planejar a sua forma de locomoção para todos os dias da sua vida em função de um evento difícil de acontecer nas condições já bastante difíceis de tornar um carro algo necessário pra sua vida? As pessoas realmente perderam a noção das coisas.

5. E vai fazer tudo de bicicleta agora? Como é isso?
Essa pergunta tem relação com várias outras, só que é mais genérica, e demonstra uma visão curta da mobilidade. Vendi meu carro em fevereiro de 2013 e não o troquei pela bicicleta. Troquei por todas as outras possibilidades juntas. Um automóvel é um investimento de vamos dizer, pelo menos 30 mil reais em mobilidade, além de todos os outros gastos, e isso acaba te escravizando a esse modal. Quem tem carro evita se locomover de outras formas, porque investiu muito dinheiro exclusivamente neste modal. Se você vende o carro, por vamos dizer 15 mil reais, e além disso pára de ter todos os outros gastos, esse dinheiro todo está completamente livre, seja pra você passar um tempo em casa coçando sem trabalhar, viajando com o dinheiro pra onde quiser, ou pra ser utilizado em todas as opções de mobilidade que você tem. Esse é talvez o ponto mais difícil de entendimento dos viciados em automóvel. Eles pensam que a gente largou um vício pelo outro. Ok, bicicleta é viciante. Mas meus colegas de trabalho estão enganados sobre minha rotina de deslocamento. Como eu SEMPRE vou ao trabalho de bicicleta, eles acham que eu não uso os outros modais. A realidade é um pouco diferente.
Quando meu destino é próximo de casa, vou a pé. Se for um pouco mais longe, de bicicleta. Talvez de ônibus, dependendo do engarrafamento - se estiver engarrafado, é bicicleta, claro! - ou se estiver chovendo e eu não estiver afim de me proteger da chuva com capa. Ou de táxi dependendo da ocasião, da distância, da preguiça e da pressa. E pra muita gente, onde está escrito ônibus, lê-se transporte coletivo, pois têm metrô trem ou outra opção no seu caminho, o que torna tudo ainda mais fácil.


6. E se chover?
Especificamente sobre a bicicleta, existe essa lenda urbana de que ciclista é de açúcar, de que se chover é impossível pedalar. Como já disse no item anterior, tem capa pra isso. Consigo chegar bem seco no trabalho. Além disso, tenho duas mudas de roupa dentro de uma gaveta da minha mesa, para caso seja pego de surpresa no caminho. Mas se chover só na volta... aí dançou. HAHAHA só rindo mesmo que quem anda de bicicleta vai ficar de frescura com chuva na volta pra casa. Na volta a chuva é pra lavar a alma. Chega em casa, coloca a roupa na máquina, toma banho e vai fazer um café, enquanto o colega de trabalho ainda está no engarrafamento. Repense seus hábitos (pra não dizer "repense seus mimimis").
Roupas especiais? Capacete? Mochila?
Pedalar é pra ser simples como caminhar.

7. E o suor?
Vivemos numa sociedade higienizada, onde tudo tem que ser limpo como mármore encerado, inclusive você. É opção sua decidir se encara essa idiotice de frente, ou se ainda se incomoda com os possíveis olhares e preconceitos, ou mesmo se se sente melhor tomando um banho quando chegar no trabalho. É bastante comum, entre os que conseguiram se adaptar a ir de bicicleta para o trabalho começar indo com roupa de ciclista ou bermuda, capacete, luvas, mochila com roupa, chegar no trabalho e ainda tomar banho. Depois com o tempo esses mesmos noobs (novatos), vão perdendo a paciência com o excesso de etapas e tarefas - pedalar foi feito pra ser algo simples - e percebem que a própria mochila colada nas costas para levar a roupa os faziam suar bem mais. Quando menos você esperar, estará indo para o trabalho de calça jeans e talvez com a camisa de botão aberta pra pegar um vento na pelugem durante o caminho. O condicionamento físico vem aos poucos, a manha de pedalar num ritmo constante sem forçar muito vem junto, e algumas soluções aprendidas na prática, como diminuir o ritmo no último quilômetro, ou parar pra tomar uma água de côco no meio do caminho, afinal, você não perde mais tempo no engarrafamento, tem tempo pra isso. O suor vai virar um detalhe na sua vida de usuário de bicicleta. Afinal, suar não é feder.
Você vai perceber a sua evolução quando começarem a te perguntar se você foi de bicicleta, pois não vão reconhecer em você sinais de como você chegou no seu destino. Acredite, isso será cada vez mais comum.

8. Mas e pra viajar pra praia? Ou pro campo?
A mesma cabeça fechada que não entendeu as respostas 2 e 3 não vai conseguir imaginar a solução para o mais simples dos problemas. Se você não tiver parentes que possuam um automóvel na sua cidade que possam te emprestar o carro num fim de semana, se não tiver carona pra ir ao seu destino, se seu companheiro ou companheira não tiver carro, se não tiver transporte pra chegar no seu destino de fim de semana, aluga um carro! Para eventos tão esporádicos assim, é prático, sai barato por ser poucos dias e tem a vantagem de no dia seguinte você se livrar desse trambolho sem ficar pagando todos os encargos inerentes à posse de um veículo.
ps: se for com carro emprestado de um parente, devolve com o tanque cheio e passa antes no lava-jato, se possível. Vai sair mais barato que o aluguel! Você agora é o parente rico da família já que economiza bastante porque não tem carro. Vai ser legal de sua parte, e seus parentes vão te encher menos a paciência porque você vendeu o carro.


9. E pra ir ao motel? De bicicleta? Tá de sacanagem!
De bicicleta no dia dos Namorados
Quem mora só não vai muito ao motel. É impressionante a quantidade de gente que mora com os pais porque não tem dinheiro pra ter um canto só seu, mas paga 500 reais por mês só da parcela do automóvel, além de todos os outros custos como IPVA, seguro, manutenção, etc. Se sua(seu) parceira(o) anda de bicicleta também, não vai ter frescura com isso e vai encarar o motel contigo. Se tem carro e não for um(a) babaca, te leva de carona. E sempre tem a opção do táxi, pros dois tomarem um goró, um espumante, uma ou duas garrafas de vinho, e voltar pra casa no banco de trás do carro, completando as carícias pós-cópula abaixo do ângulo de visão do taxista pelo retrovisor, sem medo de blitz ou de fazer uma merda no trânsito.

10. Mas velho... como você vai pegar as boyzinhas sem carro?
Como diria Fred 04 (Mundo Livre S/A), na música Tentando Entender as Mulheres:
"Todo homem deveria ter um carro
Ou senão nem precisava ter testículos"
SÓ QUE NÃO!
Colega, estamos em 2014. Achar que só tem mulher interessada no cara pelo seu dinheiro, pelo seu carro, nesse mundo plural, é velho demais! Tira esse mundo machista da cabeça e vai à luta, companheiro! Tem muita gente por aí feliz vivendo uma vida sem essa dependência (falo do carro) e que gostaria de "se divertir" contigo. Mas se você quer permanecer limitado aos estereótipos de Maria Gasolina, se esse é teu estilo, e você acha que precisa de um carro pra se dar bem na guerra, seja feliz. Ainda iria sugerir vender seu Celta com jogo de rodas e neon, e alugar um Civic pra impressionar "as mina" na balada. Mas sei que você não vai conseguir ficar sem o seu possante. Boa sorte!
ps: não comentei o sentido inverso, do macho Gasolina, porque ter carro pra se dar bem é muito associado ao machismo, ao homem que precisa prover o transporte, que tem o carro pra pegar a mulher em casa e impressionar. Sabe de nada, inocente!
Tem uma mulherada descolada por aí! Felizes sem carro!
Pra finalizar, ninguém nunca pergunta, mas tem mais uma vantagem em não ter um carro. Só me dei conta dela na minha primeira grande viagem de férias após vender meu carro. Quando você viaja de avião, de férias, e não leva a sua querida latinha com motor, como você se locomove lá no seu paraíso longe dos engarrafamentos da sua cidade, sem o seu melhor amigo? Pois deixa eu te contar um lance... você estará perdendo muito dinheiro! Melhor nem parar pra calcular. Mas é como eu disse na resposta da pergunta 5: carro é um modal no qual você aplica todo o seu dinheiro, de forma que toda vez que você não o usa pra usar outro, você está gastando duas vezes. Está gastando com o modal que está utilizando, e com o carro parado na garagem, perdendo valor, ficando velho a cada dia. E nas férias, meu amigo, não tem escolha. Se você viaja pra outra cidade por 15 dias, seu carro estará por 15 dias na garagem parado enquanto você estará gastando com táxi, ônibus, metrô, ou pior, alugando outro carro pra rodar nas férias. E se tem uma coisa que dá mais prejuízo do que um carro, é você ter um carro parado e pagar pra usar outro.

Agora me diz... quem é o louco aqui!?

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma palavra doce


Se procurarmos no dicionário uma definição para a palavra acidente, vamos encontrar várias definições possíveis para contextos específicos. Mas existe uma definição que funciona bem para o entendimento mais comum da palavra.


acidente
nome masculino
1.acontecimento casual ou inesperado; contingência, acaso


acidente In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-24].

Os usos da palavra nesse sentido mais difundido podem ser exemplificados de várias formas.

"Estava em casa, sonolento, chutei o pé da mesa por acidente e passei 5 dias com o dedão inchado.˜

"O copo estava em cima da mesa. Virei para pegar o telefone e esbarrei no copo. Foi um acidente.˜

"Os carros pararam antes da faixa de pedestre. Não entendi o motivo, mas não enxerguei ninguém. Estava dirigindo a caminho do trabalho e segui para passar a faixa como sempre faço, quando apareceu uma criança correndo pela faixa (por isso não a vi, os carros bloquearam minha visão). Foi inevitável, uma fatalidade, um acidente."

Não, peraí... Um dedo inchado, um copo quebrado, uma criança atropelada. Estamos falando do mesmo tipo de evento? Esses fatos têm o mesmo nível de influência em nossas vidas como seres sociais que somos?

Está aí o grande erro. A tal palavra doce, essa que todo mundo gosta de repetir, acompanhada do verbo ser, renegando a um passado inevitável, inalterável um evento que pode tirar a vida das pessoas "foi um acidente", não pode estar sendo bem utilizada. Esta palavra não tem nada de doçura. Estamos falando de um amargor, de um gosto ruim presente na garganta de quem ouve isso das testemunhas, da autoridade de trânsito, até  mesmo do juiz de Direito, que o que fez seu parente perder a vida, ou o que te tornou inválido, incapacitado para uma gama de atividades, não passou de um acontecimento casual ou inesperado, contingência (oi???), acaso!? É muito difícil aceitar isso. E é espantoso como esse discurso, além de adotado pela mídia, pelas pessoas na rua, está entranhado no modus operandi das nossas políticas públicas de segurança no trânsito. Estamos, com o perdão da palavra, tão fudidos em segurança no trânsito - vou me abster de usar estatísticas óbvias de comparação com outros países - que a única campanha que foca especificamente nesse erro, correção... nesse uso criminoso da palavra acidente, é uma campanha criada e abraçada por familiares e amigos de vítimas do trânsito. Não há envolvimento de governo nenhum com a campanha.


A campanha acerta em cheio por buscar o reconhecimento das responsabilidades dos atores do trânsito, focando em seus atos voluntários, suas decisões que colocam em risco a vida de outras pessoas. E isso é justamente o que se busca com a afirmação NÃO FOI ACIDENTE! Mas afinal, por que o trânsito é tão diferente de um copo em cima de uma mesa ou de um pé de uma mesa? O trânsito, o transitar, é o ato de se locomover no ambiente urbano principalmente, onde se torna inevitável o compartilhamento do espaço, a convivência entre todos. É - ainda - impossível, por mais que o carro se aproxime bastante disso, conseguir transitar pela cidade sem interagir com as outras pessoas que estão na cidade. A quantidade de interações é tão grande que não nos damos conta, já que somos mal acostumados a fazer nosso percurso concentrados apenas nas precauções necessárias para conseguirmos concluí-lo. Essa é a visão principalmente de quem se locomove de carro. Aqui vos fala quem tem carteira de motorista e teve carro por quase 20 anos.

Isso tem que mudar. É imprescindível o reconhecimento do trânsito com todas as suas características: estruturais, comportamentais, sociais. E faz parte desse processo expurgar do nosso vocabulário, na maioria dos eventos de trânsito, a palavra acidente, para enfim reconhecermos o trânsito como um grande movimento coletivo de todos, ao mesmo tempo, e não apenas o seu movimento, com todo o resto classificado como obstáculo. Esse processo de reconhecimento está claramente longe das cabeças e dos relatórios de quem toma as decisões sobre a organização do trânsito em muitas cidades do país. Por isso não temos uma campanha institucional forte como essa do Não Foi Acidente, que lembre as pessoas das suas responsabilidades no trânsito, proporcionalmente à sua capacidade de causar dano à vida de alguém.

Nas grandes capitais, temos milhões de pessoas se locomovendo pela cidade diariamente, e considerar as mortes decorrentes do ato de ir e vir como "contingência, acaso" é temerário, é negligente, é irresponsável. O resultado está aí nas estatísticas: uma chacina de mais de 50 mil mortos anuais no país.

Nesta quarta-feira, Rita de Cássia entrou para as estatísticas. Uma senhora, se locomovendo em sua bicicleta, foi engolida pela roda do ônibus que dividia a rua com ela. Antes do resultado da perícia, vários já anunciaram: foi um acidente. O senhor Fulano é um motorista exemplar.
Então, ainda sem o resultado da perícia, todos já condenaram o acaso como culpado. Segue a vida. Vamos em frente que o trânsito tem que fluir. Acidentes acontecem. Esqueçamos essa história de 1,5m de distância que isso não vai nos livrar do acaso.

Não é bem assim. Algumas informações devem ser misturadas com o que já decidiram para o caso da senhora Rita:
- a Prefeitura do Recife não fiscaliza o cumprimento do 1,5m de distância.
- a Prefeitura do Recife não faz campanha pelo cumprimento do 1,5m de distância.
- o Consórcio Grande Recife, responsável pelas concessões públicas de linhas de ônibus não registra como "desrespeito ao ciclista" as reclamações contra motoristas de ônibus, logo não tem como dar tratamento diferenciado a este tipo de infração. Um ônibus de 6 toneladas passando a  10cm de um ciclista é registrado da mesma forma que um motorista xingando um passageiro, sob o título "falta de urbanidade".
- não há um treinamento regular dos motoristas de ônibus.
- o treinamento realizado no início de 2014 trouxe melhorias visíveis no comportamento dos motoristas, mas algumas empresas como a Borborema - envolvida nesse "acidente" com Rita de Cássia e em outro "acidente" em março deste ano, que resultou na morte de José Roberto na Ponte Paulo Guerra - negligenciaram o treinamento. Poucos motoristas da Borborema foram treinados e dificuldades foram impostas para a liberação dos motoristas para o treinamento prático, com um passeio de bicicleta.

Considerando apenas essas cinco informações apresentadas, dentre várias outras que podemos citar, podemos dizer que esse "acidente" envolvendo a Rita de Cássia poderia ter sido evitado? Porque se algo pode ser feito para se evitar um evento, mas não é feito, podemos chamar de crime, de irresponsabilidade, de incompetência, de inércia, mas nunca de acidente. Rita de Cássia merece respeito, todos merecemos. E ninguém merece morrer no trânsito.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Viemos em paz, terráqueos!


"Olá, terráqueo. Eu sou um ciclista e vim para dominar
o planeta Terra (esqueci o capacete em Marte)."
Às vezes tenho a impressão de que todos nós que nos locomovemos de bicicleta somos seres de outro planeta. Implantaram em nossas memórias a ideia de que nascemos da barriga de uma mãe terrestre, nossas memórias de infância, nossa(o) primeira(o) namorada(o), o primeiro tombo de bicicleta! Inseriram aos poucos a ideia de que fazemos parte desta sociedade, mas tudo faz parte de um grande plano de defesa global, para se protegerem de nossos objetivos e ideais de dominação do planeta, já que pretendemos escravizar todos os humanos, lhes obrigando ao fardo de terem que se locomover de bicicleta. Vou explicar o porquê dessa minha suspeita.

Desde que começou essa nova onda de bicicleta como forma de locomoção, surgiu juntamente com o boom de novos ciclistas na rua, a discussão sobre as soluções para mobilidade e sobre os conflitos gerados no trânsito com o surgimento dos commuters, os seres estranhos, excêntricos, que usam a bicicleta para ir ao trabalho. Funcionando como um sistema de defesa dos que insistem no uso do carro, ou pior, nos que insistem que somente o uso do carro para locomoção é viável, começaram a pipocar campanhas focadas no comportamento do ciclista. Recentemente, a Fiat colocou no ar uma campanha que une todos que fazem parte do trânsito em pé de igualdade, reduzindo o desrespeito às leis do trânsito ao grau de "vacilo". Apesar de não existirem casos registrados de pedestres ou ciclistas que invadiram uma parada de ônibus e mataram 3 pessoas e deixaram 6 feridos, insistem em focar as campanhas no comportamento de todas as pessoas, sob o argumento de que todos erramos, desconsiderando, omitindo as diferenças de cada veículo e sua potencialidade de dano.


Um pedestre vacilão. Os carros em alta velocidade no meio da cidade, não.

Pode um ciclista ou algum pedestre causar um dano tão grande à sociedade? Qual a porcentagem de participação de pedestres e ciclistas como causadores de mortes no trânsito? Quantos pedestres já mataram ciclistas no trânsito? Quantos pedestres e ciclistas já mataram motoristas no trânsito? É realmente importante para a redução do número de mortes no trânsito campanhas focadas no pedestre e no ciclista? Sim. E não. Sim: a educação no trânsito é ferramenta importante para a mudança do modo como as pessoas se comportam nas ruas, como entendem a hierarquia do trânsito. Não: no trânsito, segundo o CTB, o maior protege o menor. Portanto, o pedestre e o ciclista merecem o cuidado do motorista SEMPRE, mesmo os pedestres e ciclistas vacilões. É isso que falta nas campanhas de redução de mortes no trânsito. Ninguém merece morrer por causa de um vacilo na rua. Entretanto, a quantidade de campanhas de respeito ao pedestre e ao ciclista é irrisória comparado a campanhas do tipo "Ciclista, use capacete" ou "Pedestre, só atravesse na faixa". As campanhas deveriam seguir o tratamento desigual que a legislação estabelece, de acordo com a responsabilidade de cada um. Intencionalmente ou não, há um movimento de desvitimização do pedestre e do ciclista! Todos somos iguais no trânsito de acordo com a publicidade dos órgãos públicos de trânsito de todo o país, um erro de abordagem que tem um custo muito alto: os números de mortes no trânsito só aumentam ano após ano.


Tem mensagem pro motorista também?

A Prefeitura do Recife, por exemplo, tem nas ruas, mensagens do tipo "Pedestre, só atravesse na faixa", mas não veicula nenhuma mensagem do tipo "Motorista, respeite o pedestre sempre". Resultado: nessa nossa cidade carente de faixas e de instrumentos de controle de velocidade, há grande chance de o motorista acelerar para forçar o pedestre a apertar o passo, seja na faixa ou fora dela.

Chegamos ao ponto de estarmos no meio de uma grande campanha nacional, o Maio Amarelo, focando na redução de mortes no trânsito, e o Governo do Distrito Federal gastou seu dinheiro, tempo e energia pra fazer um vídeo, com produção de alto nível, transformando o ato de pedalar em algo que exige muito cuidado... do ciclista apenas! Esse tipo de campanha desacompanhada de uma ação paralela, forte, alertando o motorista para todas as suas responsabilidades com relação a ciclistas e pedestres trata qualquer um que esteja na rua fora de um carro ou ônibus como um ser estranho, um invasor.  Coaduna com a propagada visão de que ciclista, pedestre, ciclovia e faixa de pedestre não fazem parte do trânsito, são considerados apenas obstáculos.

Várias recomendações para a vítima. ZERO para o potencial agressor.

Esse tipo de campanha, além de tirar a simplicidade do ato de pedalar(capacete, roupas específicas, cuidado com isso, cuidado com aquilo, etc), nos tira - a pedestres e ciclistas - o sentimento necessário de autoestima, de nos sentirmos fazendo parte do trânsito como atores principais que somos. Não é à toa que em Recife e em várias cidades do país, vemos pedestres parados nas calçadas, na frente de faixas de pedestre, esperando pacientemente os carros passarem para finalmente tentarem atravessar - geralmente correndo - somente quando não há movimento de veículos. A falta de campanhas responsáveis e com o foco correto tirou dos próprios pedestres a sensação legítima de serem donos da rua. E mais... Acompanhado desta campanha do Distrito Federal, direcionada para os ciclistas, veio a hashtag #euTenhoCuidado, quando na verdade deveria ser #tenhaCuidadoComigo ou #tenhaCuidadoComOCiclista. E o ciclista? Não deve ter cuidado? Certamente. Mas se analisarmos o trânsito misto, em ruas com compartilhamento de carros - veículos de 1 tonelada a 60kmh -  e bicicletas - veículos de 12kg a um máximo de 30km/h -, falta justamente esse foco no comportamento de quem está conduzindo os veículos mais pesados e mais velozes. A segurança do trânsito depende bem mais do comportamento de quem tem a obrigação, segundo a lei, e a capacidade, segundo a própria dinâmica do trânsito, de proteger os outros atores do trânsito, do que dos elementos mais lentos e leves.

O Governo do Distrito Federal parece que ainda não entendeu essa lógica, por isso encheu o ciclista de cuidados. Veja algumas falhas pequenas e outras maiores da campanha. Como disse anteriormente, a maior das falhas está fora dela, que é não fazer um vídeo tão ou mais incisivo que esse para o motorista. Está na hora de se dividir a responsabilidade no trânsito entre todos proporcionalmente às suas potencialidades de dano, nunca igualmente.


Nenhum ciclista quer pedalar na calçada. O motivo sempre é de auto proteção, evitando trechos perigosos no asfalto.





Continuamos com a lógica do ciclista se adaptar totalmente ao trânsito, de tomar todos os cuidados que deveriam ser do motorista por lei. Veja que no quadro ao lado não tem o PARE para o carro. A preocupação é o ciclista ter o cuidado de parar e acenar para, se o carro parar, então o ciclista poder atravessar.


Enquanto todos podem se vestir como desejam, para o ciclista se exige uma etiqueta para sua própria segurança. De dia...


... e de noite.

Veja como as pessoas se vestem no mundo inteiro para usarem a bicicleta, inclusive aqui no Brasil. É bem diferente do que sugere a campanha. >>> Cycle Chic


Apesar de não ser exigido por lei, apesar de toda a controvérsia sobre os efeitos do uso do capacete coletivamente, apesar das incertezas sobre sua eficácia na proteção individual do ciclista, apesar das estatísticas muitas vezes provarem o contrário, apesar de uma pequena porcentagem da população usar o capacete por inúmeros motivos, inclusive econômicos, se insiste na campanha pró-capacete.

O ciclista sempre é induzido a tomar cuidado com tudo. 

E mais.

E MAIS! A obrigação de total atenção é de quem sai do estacionamento, não só com o ciclista como também com outros veículos motorizados e pedestres também.


O Código de Trânsito Brasileiro determina que o ciclista deve usar os bordos da pista e não somente o bordo direito.



E pra terminar, mostra um carro ao lado do ciclista, muito perto, sem a menor necessidade. Sobrou cuidado para o ciclista, faltou cuidado com detalhes importantes na hora de se definir a campanha.







Em outro vídeo, feito para o motorista, que parece ser da mesma campanha, se evita dar a maior responsabilidade a ele: "motoristas e ciclistas são amigos. E um cuida do outro". Até quando seremos tão paternalistas com quem tem a maior responsabilidade nas ruas? Enquanto isso, o ciclista continua sendo tratado como um alienígena, alguém que apareceu do nada agora, chegou de teletransporte no meio da rua, irresponsável, desconhecedor das leis e dos costumes, e que tem tudo a aprender. Falta justamente o outro lado, que é ensinar o motorista a conviver com esse novo elemento, pelo menos na mídia, porque ciclista tem na rua desde sempre. Eles não chegaram de disco voador, estavam apenas invisíveis.



Ciclistas Invisíveis de Casa Amarela - Recife


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sabe de nada, dependente!

Parece uma decisão simples a escolha de como se locomover nas grandes cidades. Os critérios considerados são já bastante batidos: distância, conforto, segurança, tempo de percurso, custo e até mesmo sustentabilidade, para alguns. Alguns desses critérios são inalteráveis de acordo com a percepção e o tempo, ou sofrem poucas alterações. A distância por exemplo, já determina a possibilidade de se ir a pé ou de bicicleta. Por mais que existam casos isolados de pessoas que usam a bicicleta para ir trabalhar a 12 ou até mesmo 25 quilômetros de casa, esses casos são exceções existentes em cidades onde os sistemas de transporte não funcionam a contento. No geral, distâncias de até 2km deveriar ser vencidas a pé na maioria dos casos, de até 6km de bicicleta, e acima disso de transporte público, sendo o carro um modal que escapa dessas regras, recomendável para casos especiais.

Liberdade? Quem passa a maior parte
do seu tempo dirigindo nas montanhas?
Outros critérios são bastante subjetivos, de forma que há uma grande discrepância entre a realidade e a percepção das pessoas. Um dos motivos alegados pelos motoristas ao justificar o uso do carro é a segurança, nos dois sentidos: segurança contra furto ou roubo e segurança no trânsito contra acidentes. Entretanto, no engarrafamento o motorista está bastante vulnerável (não pretendo contar com a opção de blindar todos os carros, algo bem distante de nossa realidade social). E, sobre a segurança no trânsito, também é bastante contestável a ideia de que dentro de um carro se está mais seguro, além do fato de ser a existência do carro um dos fatores da insegurança coletiva que atinge a todos no trânsito. Mas há um critério pouco discutido e que nem é pensado no momento de se escolher como se locomover no dia a dia: a independência, quase um sinônimo de uma das palavras mais utilizadas em propagandas de automóveis, a liberdade.

A realidade.



O critério independência não se reduz a ser livre do engarrafamento. Podemos tentar traduzir o significado desse termo para a mobilidade da seguinte forma: se verifica o nível de independência de um modal de acordo com a complexidade do uso do mesmo, a estrutura necessária para o uso e a quantidade de fatores externos que influenciam esse uso. Podemos incluir também o tempo necessário para se usar este modal, não só o tempo de deslocamento, mas também para proporcionar esse deslocamento.

Estação de metrô em São Paulo durante as greves de ônibus.
Nesse mês de maio, com a greve dos ônibus em São Paulo, pudemos perceber a face mais cruel dessa dependência de um modal, a dependência de um sistema de transporte. E em países onde está consolidada uma estrutura viária voltada majoritariamente para os veículos motorizados, as pessoas se dividem entre duas categorias: motoristas e usuários de transporte público. Certamente, em cidades como São Paulo, as calçadas e a bicicleta não resolveriam a situação de muita gente. Mas caso a cidade considerasse esses modais, daria para uma boa parcela dos usuários, os que moram a até 10km do trabalho - pedalando, se faz essa distância em uns 40 minutos - uma opção de deslocamento em dias como esses, lhes proporcionando a oportunidade de não dependerem do sistema do transporte em casos extremos como esse de greve, além de desafogar do sistema - metrô e ônibus - uma grande massa de usuários que se locomove diariamente a distâncias menores de 6km, deixando o sistema mais folgado para o uso de quem realmente mora longe. Além de situações atípicas como essas - greve dos motoristas de ônibus - a dependência existe nos dias de circulação normal. Existe uma dependência da quantidade de ônibus, o que pode gerar filas, uma necessidade de se caminhar até a parada, a existência de um tempo parado, sem deslocamento, esperando os ônibus, além do custo é claro, a necessidade de se sujeitar aos preços impostos para o deslocamento. Metrô e VLT podem ser analisados de forma similar ao ônibus em alguns aspectos da dependência, mas pelo menos rodam em estrutura segregada, são então dotados de uma maior independência, não sendo atingidos pelo engarrafamento, proporcionando maior previsibilidade e confiança nos sistemas desses modais.


Trabalhando para o carro.
No caso do carro, esta dependência se torna  mais presente na relação tempo-custo. O usuário de ônibus migra para o carro - ou para a moto - na esperança de se livrar do engarrafamento que ele mesmo vai ajudar a produzir. No Recife, até os anos 1990, nos parecia bastante viável o uso do automóvel, porque todos só pensávamos no tempo dedicado ao automóvel como sendo o tempo de deslocamento, o que faz parecer razoável o que se gasta com ele. Era mais rápido e confortável que o ônibus, e não considerávamos as outras possibilidades. Fica de fora desse cálculo o tempo necessário para caminhar do estacionamento até o trabalho, que faz parte da realidade de alguns, tempo em oficina, lava-jato, abastecimento, além do tempo de trabalho necessário para se manter esse automóvel, que é o principal fator de influência nesse cálculo. Hoje, o carro já não é o mais rápido em muitos casos. Num percurso de ida e volta ao trabalho totalizando 15km, o que é bastante comum para o recifense, se considerarmos um total de 80 minutos - 40 em cada trecho, sendo bastante generoso! -, temos uma velocidade média de 11,25km/h. Sou exemplo prático dessa velocidade: até 2012, quando tinha carro, a velocidade média acumulada marcada no computador de bordo do meu carro, sempre oscilava entre 11 e 12km/h. De bicicleta, o tempo dos ciclistas mais lentos, sem nenhuma estrutura nem proteção do poder público, gira em torno de 15km/h. A comparação porém, é mais desfavorável ainda, já que faltam fatores externos a esse cálculo do veículo. Essa pessoa que gasta 80 minutos para ir e voltar do trabalho de carro, se ela tiver um salário mensal líquido de R$4000,00, e um carro de R$30.000 que vá usar por 4 anos e depois vender por R$14.000,00 para comprar outro, gasta por dia algo em torno de 81 minutos do seu trabalho para sustentar o veículo. Das suas 8 horas de trabalho, ele trabalha 1h21min para pagar o carro. Somando-se esse tempo ao tempo de deslocamento, sua velocidade média cai para 5,58km/h, mais lento que o pedestre. Mesmo com sutis mudanças nos valores utilizados no cálculo - consideramos 9km/l de gasolina, além de um valor hipotético fixo de seguro, IPVA, manutenção, estacionamento, - essa velocidade não muda muito. Pode mudar substancialmente para acima de 10km/h, para quem tem altos salários, bem acima de R$10.000 líquidos e opte por um carro de no máximo R$35.000 reais. Ainda faremos uma postagem somente com esse cálculo. Fica claro que a principal dependência gerada pelo carro é econômica.

Mas não pára por aí. Se o usuário do ônibus fica perdido no meio da rua quando o ônibus quebra ou quando há greve, chegando a ficar 4 horas parado esperando um ônibus, o motorista não fica atrás (ou na frente? hehe). Por se locomover com um bem de alto valor, pesado e espaçoso, não tem condições de se libertar dele quando este o deixa na mão. Se acaba a gasolina, tem que ir buscar no posto e voltar. Se há um acidente, tem que ficar para resolver toda a questão burocrática. Se quebra o carro, tem que esperar o reboque e acompanhar o conserto no dia seguinte. E o pior, se está no engarrafamento, não tem como se livrar do carro e seguir a pé, de bicicleta ou de outro transporte.

Veja caso de engarrafamento na China que durou 9 dias. Calma aí! Ninguém está falando aqui que os 100km deveriam ser vencidos por todos de bicicleta. A crítica é ao modelo rodoviarista, que consome o tempo, o dinheiro e a vida das pessoas. Uma ferrovia ajudaria bastante nesse caso, pois como falamos, os trilhos conduzem veículos mais independentes dos problemas causados pelos modais baseados neste modelo rodoviarista. Você NUNCA verá um engarrafamento de 100km de trens, de pedestres ou de bicicletas.

No outro lado do critério dependência, há os outros modais, os não motorizados. É óbvio que têm suas limitações citadas já no início desse artigo, principalmente com relação à distância, e também concordamos que pessoas com limitações de locomoção têm dificuldade de se adaptar ao uso desses modais, mas a grande maioria da população se adaptaria sem grandes problemas. O pedestre é historicamente e sempre será, apesar de ter sido desfavorecido nas últimas décadas, o modal mais independente. Ele sai de casa e já começa a se deslocar ao seu destino, independente de engarrafamento, greve, quebra de veículo - não há veículo! - ou custo. Parar para se calcular o custo de uma caminhada - com generalidades estúpidas como custo do sapato ou consumo calórico - é algo tão insignificante se comparado aos motorizados, tão longe de ser caracterizado como uma dependência econômica, que não há serventia em se fazer esse cálculo. Não demanda estruturas caras como terminais ou espaçosas e custosas para a cidade como estacionamento ou mesmo bicicletário (não tão custoso nem espaçoso assim).

A bicicleta é muitas vezes indevidamente comparada ao carro ou à moto, por uma visão simplista de que se tem duas rodas, é uma moto sem motor. Ela é em vários critérios, e principalmente no critério dependência, muito melhor comparada a um pedestre sobre rodas:
- O custo é baixo, não gerando necessidade de altos salários para se sustentar o uso do veículo.
- O uso da bicicleta consome 5x menos energia que o pedestre, sendo em média 3x mais rápido que o mesmo, sendo assim concorrente do sistema de transporte pública para distâncias médias.
- Demanda pouco espaço para estacionamento - um bicicletário com 10 a 12 vagas ocupa o espaço de um carro -, e não tendo vaga, pode ser guardada dentro do imóvel normalmente ou presa a algum equipamento de rua: grade, poste, etc.
- Não é gerenciada por nenhuma concessionária, sendo o percurso totalmente livre, assim como o horário de uso. Pelo mesmo motivo, se assemelha ao pedestre em não depender de engarrafamento ou greve.
- O fator tempo varia muito pouco com engarrafamentos e outros problemas de percurso, mesmo na chuva ou neve, em cidades do mundo inteiro
- Nos casos de falha, quebra ou pneu furado, pode ser facilmente guardada ou presa com cadeado para que se busque uma solução posterior em momento oportuno. É bastante comum entre os colegas ciclistas de Recife o uso de diversas alternativas nesses momentos de quebra:
  • existem táxis especializados, com transbike, para transporte de bicicleta.
  • alguns motoristas de ônibus, em horários com menor demanda, permitem a entrada de bicicletas nos ônibus. No metrô, em alguns horários também.
  • se integram facilmente a outros modais em cidades que buscaram esse tipo de solução.
  • podem ser deixadas no local de trabalho para serem buscadas posteriormente. O ciclista usa de outro modal à sua escolha - ônibus, táxi, a pé , bicicletas de aluguel - e no dia seguinte retorna com a solução para consertar a bicicleta.
  • Tendo oficina próxima, o que é bastante provável, a grande maioria das quebras pode ser resolvida em poucos minutos, devido à simplicidade do veículo.
É esse o destino do seu dinheiro e tempo?
Certamente a independência não deve ser o único critério a se escolher um modal para se investir para uma cidade, mas investir em modais independentes melhora o funcionamento inclusive dos modais mais dependentes. Dar condições às pessoas de poderem usar mais os modais não motorizados as torna mais independentes economicamente, sobrando recursos que antes eram exclusivamente destinados à manutenção e sustento do carro,  da indústria automobilística e setores complementares, para então serem investidos em setores diversos da economia local, possibilitando um maior investimento em lazer, alimentação, habitação e tantos outros setores. Também as torna independentes no seu deslocamento, aumentando consideravelmente sua eficiência ao se transportarem, ampliando o tempo disponível para usar a cidade e conviver com outros cidadãos, já que gastarão menos tempo presas no engarrafamento. Ora... Se estimular os deslocamentos a pé e por bicicleta dá às pessoas mais dinheiro e tempo para gastá-lo na cidade, a quem não interessa investir nesses modais?

Veja também a ótima palestra A Alforria do Caracol, de Guilherme Jordão no TEDx Recife 2013, e entenda o que muda na vida de quem ganha uma opção mais independente de deslocamento.






terça-feira, 6 de maio de 2014

Razões para NUNCA ir de bicicleta ao trabalho.

Este ano o Bike to Work Day (Dia de ir de bicicleta ao trabalho) cairá no próximo sábado, 10 de maio. Para evitar isso, foi alterado para o dia 9, sexta-feira. Se você está cogitando entrar nessa onda e ir de bicicleta ao trabalho amanhã, selecionamos nove motivos para tentar demovê-lo dessa ideia maluca! Aqui não é a Dinamarca!
Na Dinamarca só tem doido!
Texto original em http://www.huffingtonpost.com/brendan-leonard/biking-to-work_b_4426504.html
Traduzido pelo colaborador Pedro Guedes, arquiteto e mais um dos malucos que vai de bicicleta ao trabalho, costurando o engarrafamento. Chega suado sempre, com um sorriso boçal no rosto, ninguém aguenta mais.

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- Eu pedalei para todo os lugares dentro de uma distância de 6,5km da minha casa nos últimos 5 anos, incluindo todos os empregos que já tive - nunca precisei ir de carro ao trabalho em Denver. Acho pedalar estimulante, mas isso não significa que você devesse pensar o mesmo. Aliás, eis 9 razões pelas quais você não deveria nunca ir de bicicleta ao trabalho. Tenho certeza que você poderá pensar em outras.

1. Você teria que mudar completamente sua rotina.
Por favor. Deixar de lado dirigir 45 minutos até o trabalho, aquele tempo que te energiza para o dia que tem adiante? Nada mais de interação com todos aqueles motoristas divertidos, amigáveis e corteses nas ruas da cidade? Nunca mais ficar sentado num engarrafamento? Obras na pista? Trocar de faixa? Sem chance.

2. E se chover?
É, Sr. Trabalhador Pedaleiro Casca-Grossa, e se chover? Você é obrigado a pedalar sua bicicleta debaixo d’água voltando pra casa? O que você vai fazer quando chegar em casa parecendo um rato de esgoto? Isto é uma sociedade civilizada. Graças aos guarda-chuvas, corridas do carro ao escritório e às vezes um jornal sobre a cabeça, você não se molha fora do chuveiro desde 2007. Agora só falta alguém dizer que você pode levar uma capa de chuva na sua mochila - ou calças também. Que diabos é isso, um acampamento? Você apenas quer chegar no trabalho na hora.

3. O caminho de sua casa até o trabalho de bicicleta é suicídio.
Não existem ciclofaixas, ciclovias, bordos de pista ou mesmo calçadas, absolutamente nada disso da sua casa até o trabalho. Como assim você deveria encontrar ruas nas quais se possa pedalar, como ruas menos movimentadas, com limite de velocidade mais baixo ou áreas residenciais? Ou fazer desvios do seu caminho para achar uma rota mais ciclável? Não, obrigado. Você não tem tempo para essa merda.

Brad Pitt só pedala com seu hair stylist a tiracolo.
4. Você não pode usar capacete e detonar seu cabelo antes do trabalho
Fato: produtos de cabelo não são portáteis, e não são pensados para uso fora do seu banheiro de casa ou salão de beleza. E, convenhamos: seu corte de cabelo é uma obra de arte finíssima, e não algo que possa ser aprontado em 5, 10 ou até 30 minutos num banheiro qualquer de escritório. Você gasta muito tempo com seu cabelo, assim como Tony Manero. Não pode jogar tudo fora assim por causa de uma pedalada.

5. Você não tem a bicicleta ideal.
As suas únicas bicicletas são a Trek Madone e sua single-speed aro 29, nenhuma das duas vai dar certo. Você teria que ir atrás de comprar uma bicicleta exclusiva para transporte urbano, e essas custam no mínimo quanto, R$1.000? Pode perguntar aos trabalhadores que pedalam todo dia suas barras circulares por aí: elas não são nem um pouco baratas.


6. Você não pode chegar suado e fedendo no trabalho.
É um fato comprovado que depois que uma pessoa sua ao fazer exercícios, não é possível se recuperar a não ser que entre num chuveiro e lave tudo de novo. Outro fato: o suor humano é composto de mais de 90% de partículas fecais, e é por isso que você fede como um chiqueiro instantaneamente após iniciar qualquer exercício, e depois, as pessoas ao seu lado na esteira da academia começam a desmaiar como se tivessem inalado clorofórmio. Não que você possa simplesmente tomar uma ducha no trabalho, aliás, ou usar lenços umedecidos para se enxugar quando chega e tirar o mau cheiro. Seus colegas de trabalho ainda assim vão perguntar “Bob, o que diabos você fez, veio pedalando pro trabalho hoje? Com esse fedor, parece que estão destroçando um veado morto há uma semana dentro do seu cubículo”.

7. Você precisa ir à academia antes/depois do trabalho.
Como assim, você precisa carregar todo o seu material de trabalho E suas roupas de ginástica numa mochilinha enquanto pedala? Por favor. Assim, então, você pedala pro trabalho, pedala pra academia, depois ainda aguenta pedalar 45 minutos na ergométrica e depois pedala até em casa? Ridículo. Quem é você, Lance Armstrong? Acho que deveríamos apenas pedalar nossa bicicleta real e parar de ir à academia, mas somos brasileiros. Nós não malhamos na rua.

8. Você precisa usar gravata para trabalhar. Ou terno. Ou saia.
Como se não bastasse isso, é importante que você use a gravata/terno/saia desde o momento que sai de casa de manhã até quando chega em casa à noite. Não é concebível que haja uma forma de deixar parte das roupas no escritório, e as vestir depois que chegar lá, duas ou três vezes por semana. Além disso, sua combinação de terno/gravata é sempre tão específica que você não pode de forma alguma espalhar sua coleção de gravatas em dois locais. Onde diabos está minha gravata azul-safira? Preciso ver agora se ela combina com esses sapatos. E também, como se existisse alguma forma de pedalar de saia ou vestido?
Todo mundo cai de bicicleta. Fuja disso!

9. É perigoso demais
Você é capaz de se imaginar pedalando na rua com todos esses motoristas loucos passando perto de você, com nada para lhe proteger exceto talvez uma concha de plástico e isopor na sua cabeça? Você pode ser morto! A melhor coisa absolutamente é ficar na jaula protegida que é o seu carro, já que ninguém nunca morreu dentro de um automóvel. Dirigir é seguro.

Depois de tudo tão explicado, mastigado, ainda assim você quer dar uma de hipster? É pra se amostrar? Ok. Então veja De Bicicleta ao Trabalho ou Bike Anjo. Mas por favor, não espalha!