segunda-feira, 24 de março de 2014

O Império Contra-Ataca

Você que anda na Ciclofaixa de Lazer no fim de semana, não se sinta tão incluído assim. Você que usa a bicicleta para transporte durante a semana, você não é tão hipster assim. Tem uma massa de ciclistas. Até metade da década passada, você não os percebia, pareciam poucos, mas pode ter certeza, eles sempre estiveram nas ruas. Acostumados a serem empurrados pra sarjeta ou pra calçada, sempre aguentaram todos os finos e outros desrespeitos no trânsito que todos os motoristas - inclusive os atuais "in" e hipster - na época ainda essencialmente motoristas também, sempre deram. Esses ciclistas se encolhiam, esperavam vocês - na verdade nós! Esse ciclista que vos escreve já foi motorista por 18 anos e fez muita merda no trânsito - passarem e continuavam, seguiam em frente, na época que os problemas do trânsito se resolviam de uma única forma, a compra do bem prático, de luxo, e totalmente excludente: o carro.

A questão é que o cenário mudou. Os ciclistas invisíveis continuam lá, como sempre. Talvez menos invisíveis. Mas quem está incomodando o sistema rodoviarista de mobilidade, que inclui usuários, governo, mídia, são os novos usuários de bicicletas para transporte. Eles - nós - não são melhores do que os ciclistas que aparecem nesse vídeo acima. Na verdade, deveriamos aprender muito com eles. Mas por termos usufruido de uma educação escolar um pouco mais privilegiada, nós não nos encostamos para o motorista passar. Batemos no vidro, gritamos, reclamamos, discutimos. O motorista, acostumado a ser o rei da rua, está lá no seu camelo de lata gigante, mas agora tem que ouvir. Ouve na rua, nos jornais, na TV, ouve o prefeito falar no assunto, o secretário de mobilidade - que só fala, nada faz -, e começa a encher a paciência de tanto ouvir falar em bicicleta. Talvez no correr do seu dia estressante ele não perceba exatamente, mas, acostumado a ver a cidade inteira construída somente para quem tem carro, começa a se incomodar de tanto ouvir falarem sobre uma solução que ele acha que não é pra ele, e que sabe que vai tirar espaço de sua banheira com quatro rodas. Essa é uma novidade que as pessoas têm que começar a engolir. ATENÇÃO >>> as soluções podem servir para a coletividade, mesmo que você nunca use!

Essa reação dos motoristas, de acusar os ciclistas de irresponsáveis, de reclamar do ciclista e do pedestre, que não respeitam as leis de trânsito, que são folgados, já nos acostumamos. Continuaremos rebatendo uma a uma cada uma dessas generalizações vergonhosas, mas o que vem ocorrendo na mídia, formadora de opinião, é preocupante, revoltante... é ESCROTO. Em menos de um mês, da sexta-feira de carnaval pra essa semana, os três grandes jornais do Estado: Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco e Folha de Pernambuco, publicaram matérias criticando o comportamento de ciclistas e pedestres, um grande desserviço à sociedade. É claramente uma publicação de ideias revanchistas, no momento em que uma parte da sociedade se une para valorizar o elemento humano na cidade e no trânsito. E pior, nenhuma das três matérias traz reflexão acerca da principal pergunta sobre um comportamento humano: POR QUÊ???

Vejam... as leis de trânsito no mundo inteiro punem basicamente comportamentos nocivos à sociedade, mesmo sem a ocorrência do resultado, o "acidente". Isso se torna necessário para um ambiente onde as pessoas têm equipamentos pesados e velozes nas ruas para se locomoverem. Portanto, analisar comportamentos dos agentes envolvidos no trânsito sem perguntar o por quê tira qualquer legitimidade da análise e da punição criada para quem não cumprir os comportamentos desejados.
Alguns exemplos:

- O pedestre atravessou com o sinal fechado. Por quê? Por que no Pina o sinal de pedestre fica fechado até 8 minutos. Motorista amigo, se um sinal ficar fechado 3 minutos para o senhor, certamente furarás o semáforo, ainda tuitarás reclamando do absurdo.

- O pedestre atravessou a rua fora da faixa. Por que? Por que não tem faixa na Praça do Parnamirim, a única solução para sair da praça é atravessando fora da faixa.

Pedestre e ciclistas x carros: devem ser tratados de forma isonômica?
Ciclistas incluídos no trânsito não desrespeitam regras.
- O ciclista furou o semáforo. Mas afinal, alguém que não tem uma carcaça de uma tonelada para lhe proteger, por que esse energúmeno fura um sagrado semáforo? Por que ele pesa os riscos, e não vindo carro no cruzamento, ele prefere furar o semáforo e trafegar 200, 300 metros sem todos os veículos que estavam ao seu lado no semáforo lhes tirando fino, fazendo conversões perigosas à sua frente. Veja na foto ao lado uma Bikebox, comum na Europa e Estados Unidos, e até em São Paulo (infelizmente compartilhada com moto). Uma estrutura dessas em um cruzamento aumenta o engarrafamento em um carro por fila, e dá aos ciclistas opção segura para não precisarem invadir a faixa de pedestre.

Erros existem em todos os modais. Quem erra são as pessoas, e não os modais. Mas quais as consequências desses erros? Um motorista a 80km/h na Agamenon Magalhães pode causar os mesmos danos que um pedestre furando um semáforo fechado já há 7 minutos? E afinal, por que um motorista dirige a 80km/h no ambiente urbano? Esse é um por que interessante de responder. Por que há poucos radares na cidade?

Por que o motorista estaciona em cima da calçada? A falta de vagas justifica usar o espaço do pedestre?
É na resposta dos porques que podemos justificar ou não o comportamento de todos no trânsito. A verdade é que em sua grande maioria o pedestre e o ciclista quebram regras de um sistema que não foi feito pra eles, por um único motivo: segurança.

Vamos terminar comentando as três matérias rapidamente, para demonstrar como foram parciais, revanchistas, conduzidas de forma equivocada. Está na hora de os jornalistas colocarem o que ouvem do outro lado da história.
Blog de Olho no Trânsito (JC) - A jornalista procurou os ciclistas, mas escreveu somente o que queria para chegar ao resultado que já tinha em mente antes de estudar sobre o assunto. Ela usou uma : "alerta  que a mistura álcool e direção para o ciclista é tão perigosa quanto para o motociclista" e "A moto ainda consegue ser pior por ser um veículo motorizado, que pode desenvolver altas velocidades. O trauma na bike é menor, mas alcoolizado, o ciclista potencializa o risco de atropelamento.". O ponto de vista dos ciclistas foi ocultado da matéria, já que as perguntas da jornalista pescavam uma resposta que indicasse que estávamos incentivando a beber e pedalar. Vamos nos abster de discutir o assunto aqui. A lei já define o que pode e o que não pode, e discutir as permissividades para ciclistas e pedestres na lei não é o objetivo desse post.
definição pessoal do que é certo ou errado para escrever a matéria. Procurou um especialista sobre motos (Oi???) pra falar sobre os riscos da mistura bicicleta+álcool.  O especialista faz duas afirmações contraditórias, resultado de pesquisa nenhuma dele e da jornalista

Blog Mobilidade Urbana (Diario) - Esse texto irresponsável foi copiado do site Vrum, especializado no público que tem carro.  Ele é praticamente um estímulo aos motoristas para avançarem em cima de pedestres infratores. O assunto é a possibilidade de multar pedestres. O que isso trará de mudança para o nosso trânsito nessa cidade com pouquíssimas faixas? Certamente tirará mais gente das calçadas, e os empurrará para outros modais, principalmente o carro. A aplicação de multas ao pedestre mudaria em muito pouco nosso cenário de mobilidade no quesito segurança. Não há na matéria nenhuma reflexão sobre o fato das cidades serem péssimas para pedestres no Brasil. O nível de utilidade de uma matéria dessas para o trânsito é mínimo.

De quem é a culpa? Não interessa.
Ninguém merece morrer por um erro.
Cotidiano (Folha de PE) - O repórter da Folha procurou ciclistas, recebeu dados, informações sobre mortes no trânsito. Ouviu comentários sobre como outras cidades estão diminuindo as mortes no trânsito. Não publicou nada disso. Tratou ciclistas, patinadores e usuários de skate como invasores no trânsito. Em nenhum momento jogou a responsabilidade nos veículos maiores. Tratou a matéria inteira da irresponsabilidade dos veículos não motorizados. Poderia muito bem ter dado um aviso aos motoristas " a cidade não está preparada para esses novos usuários. É recomendável diminuir a velocidade e dobrar a atenção ao avistar pessoas desprotegidas no asfalto.". E numa matéria toda sobre comportamento de ciclistas, colocou este quadro com números de mortes e vítimas de acidentes no Estado. Fez uma associação direta entre os fatos.

Estamos nas Cruzadas contra os não motorizados, a mídia se apresenta imparcial, e exige de duas figuras o mesmo comportamento exemplar. Exige indiretamente do ciclista e do pedestre que sejam perfeitos, que nunca cometam erros - erros estes que colocam em risco suas próprias vidas - para que possam reclamar do motorista que joga um carro de 1000kg em cima deles. É isso que vocês chamam de isonomia?

Saiam da banheira de hidromassagem sobre quatro rodas e venham andar e pedalar sobre brasas com a gente. Quem sabe assim, com os pés cheios de bolhas, vocês consigam escutar e entender o que se diz do outro lado da notícia. Enquanto permanece esse contra-ataque, está saindo do papel o projeto do corredor de BRT da Caxangá com total priorização a carros e ônibus, relegando pedestres e ciclistas a um espaço menor do que o adequado, tudo em nome da Santa Mobilidade, medida em fluxo de veículos por hora.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O que realmente importa?

Estigma é uma característica pitoresca para pessoas e cidades. Ciclista tudo é excêntrico, pedestre é tudo folgado, baiano é preguiçoso, São Paulo é a cidade com o pior trânsito do Brasil. Pois não é. Depende do que você considera como pior. Certamente, pra quem está dentro do carro, o pior do trânsito é o engarrafamento, achar onde estacionar, a indústria de multas - faz-me rir!!!! -, mas para todos os assassinados nas ruas diariamente, o pior do trânsito são as mortes. Nem vale aqui discutir o que é mais importante. Se alguém acha a solução para o engarrafamento a prioridade máxima da mobilidade, e não as mortes no trânsito, meus parabéns. Nós do Cicloação achamos a segurança o pior problema do trânsito. E é por isso que fazemos questão de comparar nossa pequena e plana cidade com a gigante e inclinada São Paulo. O Bicicreteiro da Silva já tinha feito isso, mas agora vieram os dados.

Em matéria divulgada no Estadão, temos que a maior cidade do país teve um declínio no número de mortes em 6% em 2013, apesar do recorrente aumento da frota e da população - algozes e vítimas respectivamente -, o que poderia ser uma surpresa. Mas será que é? Em 2013, o que tivemos de diferente em São Paulo? Algum investimento pequeno, mas real em estrutura cicloviária, criação de faixas exclusivas de ônibus, redução das velocidades máximas em áreas do centro da cidade, campanha pelo respeito ao ciclista veiculada na TV, pedindo respeito ao 1,5m ao passar o ciclista, além de outros cuidados.. Em quantidade menor, sem noção do tamanho dessas medidas, pude ver em alguns bairros alargamento de calçada em esquinas, diminuindo a distância de travessia na faixa. O que essas medidas têm em comum? Todas elas são investimento em mobilidade em todos os outros modais, com exceção do automóvel. Sobre as três principais, comentários rápidos:

- Aumento de malha cicloviária: seduz as pessoas ao uso da bicicleta como transporte. Algumas delas saem do carro. Mais bicicletas, mais mortes? Não. Menos carros, menos mortes.

- Criação de faixas exclusivas: torna o ônibus mais rápido em muitos trechos. Também tira gente dos carros, e diminui a velocidade dos carros pelo aumento do engarrafamento.

- Redução de velocidades máximas no centro: torna o ambiente mais seguro para ciclistas e pedestres. Também é um atrativo a esses modais, consequentemente tira pessoas dos carros.

- Campanha de TV: pedindo respeito ao ciclista, sem conceitos ambíguos e irreais de respeito de lado a lado entre ciclistas e motoristas. Mostra ciclista levando criança, ocupando a faixa, sem capacete, todo tipo de comportamento normal no mundo inteiro, mas motivo de revanchismo de muitos clientes da indústria de multas por aqui. A educação como elemento transformador do trânsito. Lembrando ao motorista o que já está no CTB. E podemos lembrar ainda, como etapa seguinte a esta campanha, o fato de os agentes da CET estarem multando o desrespeito ao ciclista, notícia que se espalha rápido, seja como indústria de multas, ou qualquer outra coisa.


O resultado final é que a cidade de São Paulo conseguiu quebrar a barreira dos 10 mortos/100.000 habitantes no ano, pra baixo! Atingiu o ainda perigoso, mas não tão trágico número de 9,6!!!

Repetimos então o quadro do nosso último post, com dados informados essa semana pelo Observatório do Recife. Esses dados são de mortes por 10.000 habitantes, então em 2011, quando os números de SP eram eram um pouco maiores que 10 mortes por 100.000, em Recife, tinhamos 39,2 mortos por 100.000, já que o quadro abaixo mostra números por 10.000 habitantes. Menor que 2010, mas impossível de determinar que isso é uma tendência. O fato tão preocupante quanto o alto índice de mortes, é a falta de dados. Somos uma cidade muito menor, e não temos transparência sobre que condições de trânsito temos. 2012 e 2013 são uma incógnita. Se daqui uns meses ou anos, quando tivermos esses dados, eles demonstrarem um aumento das mortes, já estaremos muito atrasados no tempo para tomarmos alguma medida.
Mortes por 10.000 habitantes
Nunca imaginei que nossa meta mais próxima seria ser tão seguro quanto São Paulo. Isso significaria hoje, com os números que temos, diminuir em 75,5% as mortes no trânsito.

Quantas dessas medidas citadas acima foram implantas em Recife? A faixa exclusiva na Av. Mascarenhas de Moraes. E junto com ela, a proibição de ciclistas compartilharem a via com os ônibus, o que também já acontece em São Paulo.

Pra terminar, uma última informação. Em São Paulo, com 12 milhões de habitantes, 35 ciclistas morreram em 2013. Em Recife foram 31.

quarta-feira, 19 de março de 2014

CTTU, inimiga da sociedade


Não há um pingo de felicidade ou orgulho em se afirmar que o órgão responsável pelo trânsito seja inimigo da sociedade. Mas os fatos demonstram que a CTTU trabalha, age, dorme, toma banho pensando somente em carros, não importa quem esteja dentro deles. Se alienígenas canibais dirigissem automóveis, é pra eles que a CTTU funcionaria. Tirando ações pontuais no Derby, Boa Viagem e Recife Antigo, o corpo técnico do órgão, os cabeças - começando pelo Secretário de Mobilidade -, os agentes, todos trabalham preocupados com o fluxo de veículos. Todo o resto, dos ônibus aos pedestres, é tratado de forma secundária por todo o órgão.

Nosso objetivo com esse post é demonstrar que não se trata de um exagero. Selecionamos alguns fatos que comprovam que a CTTU continua gerindo o trânsito, inclusive nessa nova gestão, num sonho de mobilidade inclusiva traduzida em "todos têm o direito de ir e vir com seu automóvel. Dane-se o resto!". Vamos aos fatos:

Estação com 10 bicicletas na calçada:
por que não tirar duas vagas de automóvel
em vez de ocupar o já reduzido espaço
de uns 15 pedestres?
1. As bicicletas de aluguel, que inauguraram a era Braga na CTTU, não são ideia de Braga. Vieram do governo do Estado + Itaú. Braga fez todo o possível para colocar todas as estações sobre as calçadas, não querendo perder uma única vaga de carro das trocentas mil que existem na cidade.


2. Indústria de multas. Ah, a indústria de multas... Você pode buscá-la no fim do arco-íris, pois pote de ouro não achará por lá. O mimimi motorizado tem mania de afirmar que tudo é indústria de multas. De radares de velocidade a carros multados em local irregular. Se o órgão de trânsito coloca radar de velocidade de 60km/h numa via que a velocidade máxima é 60km/h, vem a chiadeira. Mas na CTTU, o potencial produtivo de multas está muito aquém do quantitativo de infrações em Recife. A quantidade de fotos na internet de automóveis parados em ciclofaixas - até mesmo na ciclovia de Boa Viagem! -, sobre calçadas, em locais proibídos, é de perder a conta. E em locais onde antes era proibido, mas os motoristas começam a estacionar, a CTTU em vez de multar, coloca uma placa autorizando o estacionamento. Foi assim na Av. Rui Barbosa, na altura do Parque da Jaqueira, onde era proibido estacionar dos dois lados. A população reclamou dos carros estacionados no domingo e o órgão foi lá e colocou uma placa autorizando o estacionamento nos domingos, no horário da Ciclofaixa de Lazer. E os motoristas ainda estacionam nos outros dias da semana, sem problemas.
Já ocorreram também vários avisos ao Secretário de que os agentes são orientados a não multar em vários locais no Recife Antigo, na ciclofaixa de Casa Amarela, e em vários outros locais da cidade.


3. Desrespeito ao CTB pelos próprios agentes. Não param de ocorrer flagrantes de agentes da CTTU desrespeitando o Código de Trânsito Brasileiro. Viatura em cima de calçada, reboque da CTTU estacionado na ciclofaixa - e o agente disse que ia só rapidinho fazer um lanche do outro lado da rua - moto parada no semáforo em cima da faixa de pedestre, ameaças a pedestres e ciclistas, agentes se negando a multar infratores, dizendo sem vergonha alguma que não respeitam pedestre, e até viatura da CTTU tirando fino de ciclista!

4. Atendimento de solicitações. O atendimento pelo telefone 08000811078 é burocrático e demorado, com percentual de eficácia baixíssimo no atendimento. O Cicloação, juntamente com outros ciclistas, possui lista com dezenas de protocolos de solicitação de atendimento sem resultado.

5. Treinamento. Os próprios agentes, com raras exceções, ignoram completamente pedestres e ciclistas. O foco da CTTU é sempre a fluidez do trânsito. respeito ao pedestre e aos ciclista não é alvo dos agentes de trânsito. Não têm conhecimento das leis nem da estrutura da cidade, muito menos da missão deles na proteção dos mais frágeis no trânsito.

6. Infraestrutura. Mais de um ano de nova gestão e não foram criadas novas ciclovias e muito pouco feito pelas antigas. Novo edifício garagem é aprovado nas Graças e nenhuma vaga de automóvel em todo o Recife repleto delas foi retirada da rua. Nenhuma vaga de carro foi substituída por ciclofaixa, paraciclos ou bicicletários. Os únicos paraciclos instalados foram resultado de ação da Secretaria de Turismo, todos instalados na calçada.

7. Diálogo. Não há. Em momento algum o órgão procurou deliberadamente os usuários da bicicleta, seja através da Associação de Ciclistas Urbanos ou diretamente, para trocar idéias e experiências sobre transformação da cidade.

8. Ciclofaixa de Lazer. Ação da Secretaria de Turismo. Foi e é a grande oportunidade da CTTU relembrar aos motoristas a preferência dos pedestres e ciclistas sobre os motorizados. Encheu as esquinas da ciclofaixa de agentes para servirem de terceiro tempo de semáforo, em vez de darem preferência aos pedestres e ciclistas na conversão, como diz o CTB.

9. Gestão das informações sobre o trânsito. Qual a informação mais importante para a gestão do trânsito? Velocidade média? Quilômetros de engarrafamento? NÃO! Mortes no trânsito e acidentes com vítima! O trânsito de pessoas, independente do modal, deve ser antes de tudo, seguro. Mais importante do que chegar rápido é a certeza de chegar. Não há disponível na internet nem há organizado pelo órgão informações sobre mortes no trânsito dividido por modal, idade, gênero, local e motivo da morte. Não existe um mapa da violência no trânsito em Recife. Em documento de hoje do Observatório do Recife, temos a capital pernambucana como a 17ª capital com trânsito mais violento do país, para qualquer pessoa, e não para ciclistas apenas. É um número 2 vezes maior que São Paulo e 20 vezes maior que Amsterdam. Aos céticos da carrocracia que não aceitam o exemplo de Amsterdam, apesar de sua semelhança com Recife em vários aspectos, informo que a gestão das informações do trânsito, principalmente das mortes, é tratada com seriedade em várias outras cidades. Segue documento de 2010 de New York, totalmente focado na segurança do pedestre. Boa parte do que esse documento apresenta pode ser feito por qualquer órgão sério de trânsito. E a CTTU nem a SEMOB não fazem nada disso.

10. Respeito ao 1,5m. Recife continua sem nenhuma multa em sua história de desrespeito ao ciclista. Não existe multa por desrespeito ao 1,5m de distância - como se fosse necessário uma trena pra confirmar isso quando se passa a 5cm de distância - nem há multa por ultrapassar o ciclista em velocidade não compatível à segurança.

11. Zonas 30. No mundo inteiro uma das medidas que traz maior benefício para uma melhor qualidade de trânsito é a criação de zonas 30 (limitação da velocidade máxima a 30km/h com fiscalização e limitados físicos de velocidade como estreitamento de vias, faixas de pedestre no nível da calçada, lombadas físicas, etc), em regiões onde se quer favorecer o trânsito de pedestres e ciclistas, áreas residenciais, com escolas, comércio de bairro, etc. O Secretário de Mobilidade João Braga foi questionado sobre a criação de uma zona 30 em Casa Amarela, inclusive pelos moradores do bairro, e negou-se a avaliar o projeto seriamente. Nenhuma zona 30 está nos planos da CTTU, o órgão ignora avanços pró pedestres e ciclistas já testados em outras cidades. Não concordou com a implantação de zonas 30 nem mesmo em ruas onde a velocidade já é de 30km/h. Na Inglaterra, Estados Unidos, França, Dinamarca, Alemanha, as zonas 30 são o principal instrumento de humanização do trânsito.

12. Faixa azul. A prefeitura implantou a faixa exclusiva de ônibus da Cosme Viana e da Av. Mascarenhas de Moraes, proibindo a circulação de ciclistas nelas. A Ameciclo, associação de ciclistas urbanos do Grande Recife se pronunciou várias vezes a favor do compartilhamento, isso já funciona em várias cidades. É muito mais fácil treinar os 6000 motoristas de ônibus do que os 700.000 motoristas de motos e carros a compartilhar a via com os ciclistas. Houve um ótimo treinamento dos motoristas ministrado pelo consultor de mobilidade André Pasqualini, é visível a melhora do comportamento dos motoristas, mas o Secretário de Mobilidade municipal e os técnicos da CTTU, baseados somente em convicções pessoas, sem nenhuma argumentação fundamentada, insistem na proibição. A solução apresentada no caso da Mascarenhas é uma ciclovia na Avenida Arquiteto Luiz Nunes, uma via paralela, ignorando completamente o uso da Mascarenhas pelos ciclistas que trabalham ou visitam estabelecimentos da própria avenida. Além da velha ilusão do gestor de trânsito que não conhece a bicicleta de que o ciclista vai pegar o caminho mais longo por causa de uma proibição. Quem consome calorias leva o fator distância muito mais em consideração do que quem consome gasolina para se locomover. É uma proibição tão absurda como estabelecer calçadas de mão única para pedestres. Quem vai obedecer isso?

13. Carnaval 2014. Permitiu a passagem de carros pelo enorme trânsito de pedestres na Ponte Buarque de Macedo. Aumentou as vagas de automóvel no Recife Antigo em 25%, causando um caos na circulação dos ônibus de linha nos arredores da ilha. Mudou a localização de palcos e impediu a saída de blocos em certas ruas como no Pátio de Santa Cruz para evitar engarrafamentos, colocando o trânsito de veículos acima de uma festa popular que ocorre somente por alguns dias, em vez de auxiliar a passagem dos veículos juntamente com o trânsito dos blocos, ou indicar caminhos alternativos para o trânsito.

14. Som na Rural. Numa ação totalmente isolada e descabida, juntamente com a Polícia Militar, autuou a Rural de Roger num ato claramente político e de revanche, um evento que não surgiu do nada, que já estava consolidado. No mesmo dia uma viatura da CTTU parou na frente da rua Alfândega (rua peatonal na lateral da Igreja da Madre Deus), e mesmo vendo a rua transformada em estacionamento, nada fez. O mesmo descaso ocorre com a calçada na frente da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, na Praça do Arsenal, transformada em estacionamento pelo flanelinha e  constantemente ignorada pelos guardas que passam por ali.

15. Sinalização para ciclistas. Com exceção dos poucos kms de estrutura cicloviária da cidade, no resto da cidade inteiro não há uma sinalização qualquer que indique ao motorista a preferência do ciclista ou minimamente o direito do ciclista de usar a rua.

16. Canais de comunicação. No twitter, único canal de comunicação com a população que a CTTU utiliza constantemente, todas as mensagens são sobre engarrafamento ou acidente (o que acaba por ser sobre engarrafamento também). Dicas sobre legislação de trânsito que protejam os outros modais não fazem parte do repertório NUNCA. Chegaram a afirmar no twitter que pedestre tem que respeitar os carros ao atravessar a rua.

17. Semáforos e faixas para pedestre. Não há um semáforo para pedestre que acionado abra para o mesmo em 15 segundos no máximo. Pedestre em Recife não tem prioridade. Há semáforos com tempo de espera de até 8 minutos. Tudo em nome do fluxo de veículos, excluindo o pedestre do cálculo de fluidez no trânsito. Que tal incluir todos os outros modais além dos veículos motorizados nesse cálculo de fluidez? Que tal calcular a fluidez de pessoas? Há também uma grande quantidade de vias de alto fluxo de veículos onde não há travessia seja para o pedestre, principalmente faixas de poderes, em trechos longos para quem se locomove a pé.

E pra completar e corroborar as informações dessa lista exemplificativa, já que a lista de erros de gestão do órgão é infindável, algumas informações divulgadas no relatório do Observatório do Recife, que citei mais acima. Segue algumas imagens com dados relevantes sobre a mobilidade na capital.

Apesar da diminuição para o ano de 2011, o numero é alarmante. 3,92 mortes para cada 10000 habitantes no ano. Em São Paulo esse número gira em torno de 1,3. Em Amsterdam, o que podemos chamar uma boa de meta de segurança no trânsito, é 0,15.
Número de mortes com bicicletas permanece estável e alto. Intrigante a falta de informações sobre os números de 2012 ainda!
A única mudança de 2012 para os anos anteriores foi a ciclofaixa de Casa Amarela.
22% da receita do município vai para urbanismo. Além do recapeamento das ruas e o sustento da CTTU, pra onde vai o resto?

Afinal, 650 milhões de reais gastos com urbanismo. Com que qualidade de urbanismo? O que muda? Estamos transformando dinheiro em asfalto apenas? Cadê a inversão de prioridades? Cadê a transformação da cidade?
Por todo o exposto, não há nada diferente a dizer do que FORA BRAGA! E fora também o corpo técnico da CTTU, que não se atualizou no tempo e ainda pensa que trânsito é característica de veículos, quando na verdade quem transita são as pessoas, dentro ou fora de automóveis. Ou muda essa mentalidade, ou sentemos em nossos carrinhos, no ar condicionado, ouvindo música, e vamos aguardar o colapso da cidade. Pra quem acredita que ele ainda não chegou.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O culpado é o ciclista!

Mais um ciclista foi atropelado por um ônibus no Recife, na manhã desta quarta-feira. Desta vez, o fato ocorreu na recém inaugurada faixa azul da Avenida Mascarenhas de Moraes, exclusiva para ônibus. Como de costume, declaram a vítima como único culpado.



Sem a devida investigação do ocorrido não é possível saber por completo a história! Não dá pra saber se o ciclista realmente entrou de repente na faixa de ônibus. No entanto é fato que, em linhas gerais, ninguém quer se machucar, ninguém é terrorista suicida no trânsito e ninguém quer morrer; da mesma forma que ninguém quer machucar ou matar outra pessoa no trânsito. Não! Não dá pra saber, espero que tenham câmeras de segurança no local para apurar melhor a responsabilidade de cada um. Mas André Pasqualini foi atrás da história e ouviu do próprio atropelado:

“
Aquela faixa é muito estreita e eu estava no cantinho como sempre, daí o ônibus tentou me ultrapassar, passou muito perto até que a lateral dele bateu no meu guidão e eu caí, então a roda do ônibus passou por cima da minha perna”


Tanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) quanto a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) dizem claramente de quem é a prioridade. Lá está escrito que o MAIOR deve sempre PROTEGER o MENOR, e que os órgãos de trânsito DEVEM PROVER, PROJETAR e PENSAR infraestrutura para os CICLISTAS e COM PREFERÊNCIAS SOBRE OS MOTORIZDOS! A Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) projetou no local uma nova infraestrutura e não deu nenhuma preferência ao ciclista. Na verdade, em reuniões entre representantes da Ameciclo e a CTTU, foi constatado que eles realmente colocam o transporte coletivo MOTORIZADO à frente dos NÃO MOTORIZADOS, contrariando a Lei FEDERAL (PNMU). Então, é mais do que esperado que quando você projeta algo para o motorizado sem antes resolver a questão do ciclista, você acaba por gerar potenciais atropelamentos e colisões. Está aí o resultado! A CTTU fez a faixa azul e não indicou (não tem indicado em canto algum) onde o ciclista deve transitar. Disse em nota no jornal que não deveria ir para a faixa azul, pois seria perigoso.


Ótimo, CTTU! E VAI POR ONDE??? Informe ao ciclista como! E não é com campanha não, é sinalizando mesmo. Um ciclista relatou que transitou pela Mascarenhas e não sabia por onde ir. Na esquerda os carros voavam, ao lado da faixa de ônibus eles buzinavam como loucos... Agressões e agressões! Se na calçada e no canteiro é proibido, não há ciclovia e o bordo direito foi retirado. Onde transitar? A faixa de ônibus é o que sobra. É melhor ter um, dois, três ônibus cruzando com você no percurso inteiro do que mil carros te ameaçando.


A bicicleta utilizar a faixa exclusiva de ônibus não é proibido pelo CTB! O artigo 184 coloca a infração que pode ser resumida como “Transitar com veículo na faixa da direita se ela estiver regulamentada para outro tipo de veículo”, mas, claramente é um dos erros que o próprio legislador do CTB comete quando esquece que determinou que bicicleta era um veículo. Esse artigo de infração não deve se sobrepor aos artigos que regem as permissas do código como um todo. Vamos lá:
O artigo 58 OBRIGA o ciclista a ANDAR nos BORDOS na inexistência de infraestrutura para ele destinada e COM PREFERÊNCIA SOBRE OS MOTORIZADOS. Se ele for transitar na via, deverá fazer nas MARGENS da pista. E aí, quando se lê o artigo 57 para percebe-se isso, pois este obriga os ciclomotores a andarem na direita e o parágrafo único diz que na existência de uma faixa exclusiva na direita, eles devem ir para a adjacente a esta. Fica bem claro que a existência da faixa azul não cria um bordo novo e portanto o ciclista vai ter que andar nessa faixa, e que a limitação imposta no artigo 57 não foi propositadamente repetida no 58. O legislador percebeu o risco que é andar no meio da via ou numa faixa de alta velocidade ou ainda achoU que o código seria seguido pelas autoridades de trânsito e que a estrutura para o ciclista iria ser criada previamente. Claramente, o artigo 184 que proibiria  o ciclista de andar na faixa de ônibus não foi escrito pensando nisto. O que chegamos em...


Em outros países, o compartilhamento é possível. No Recife, o ciclista tem que usar as paralelas.

NÃO HÁ PLACAS SINALIZADORAS QUE INDIQUEM QUE É PROIBIDO AOS CICLISTAS TRANSITAR NA VIA. Então não é para usar as vias paralelas obrigatoriamente, como dito por pessoas dos órgãos de trânsito e gestores da cidade! O ciclista é livre para escolher onde deve transitar, a não ser que haja uma proibição expressa e bem sinalizada.


Portanto chegamos no impasse:
De quem é a CULPA? A culpa é do ESTADO (enquanto ente, seja em que esfera for) que não projetou as vias PRIMEIRO - conforme LEI FEDERAL - para os NÃO MOTORIZADOS, que não indicou e sinalizou devidamente ao ciclista onde ele deveria transitar, que não educou para o trânsito, desde o início e de maneira correta, os motoristas, muito menos o ciclista, ou qualquer cidadão desde a escola. A responsabilidade é do estado que é carrocrata!
De quem é a CULPA? A culpa é NOSSA enquanto sociedade! Nossa de permitirmos esse tipo de coisa acontecer repetitivamente, de não pressionarmos o estado a tomar as corretas providências, de elegermos quem elegemos e de pouco fiscalizar os eleitos.
De quem é a CULPA? Das empresas de ônibus que colocam seus motoristas para trabalharem como condenados, estressados, e cobram deles excessivas velocidades em suas voltas.
De quem é a CULPA? Do motorista de ônibus, que não tomou conta do menor, que não conseguiu evitar uma colisão, que não reduziu ao ver perigo, que não respeitou o 1,5m de distância ao passar pelo ciclista, que utiliza uma máquina pesada e cede à pressão do patrão.
De quem é a CULPA? Não! Não é do ciclista, excluído e marginalizado, sem educação e sem infraestrutura, sem conhecer o código, sem poder transitar decentemente, sem nada: UM MARGINAL. À margem da sociedade que o exclui.


Mas, é o que todos decretam: O culpado é o ciclista! Ele é culpado por estar nas ruas! Tem culpa de ser humano, pessoa, mero mortal. Tem culpa de não engarrafar, não poluir, não matar, não estar carregando uma tonelada consigo. Você é ciclista? Então VOCÊ É CULPADO, MARGINAL! É isso!

Ciclista, sua CULPA É EXISTIR!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A Ilha da Fantasia




"Venham para a Ilha da Fantasia!"

Praça do Marco Zero, 29 de dezembro de 2013.
No último domingo do mês a Prefeitura do Recife fecha várias ruas do Recife Antigo para dar um espaço para as pessoas usarem a rua, conviverem, usarem a cidade da forma como deveria ser todos os dias, afinal, a cidade não é um conglomerado de ruas, pontes e viadutos, ela é um espaço de convivência e é do poder público que deve vir a ajuda para a transformação deste tipo de espaço. Numa cidade onde a qualidade do asfalto é melhor que das calçadas, onde o semáforo fica aberto 8 minutos para os veículos e 15 segundos para os pedestres, onde se estaciona em praças, em cima de calçadas, em ciclofaixas, na frente de rampas de deficientes, em vagas de deficientes, é o agente de trânsito que está na ponta e que deveria ser o instrumento de equilíbrio dessa relação de uso do espaço público pelas pessoas e pelos veículos. O Recife Antigo se tornou uma espécie de ilha da fantasia, onde falta somente jogarem pétalas de rosas e tocarem músicas de boas vindas quando entramos na ilha. Ao sairmos de lá, voltamos ao mundo real de faixas de pedestre apagadas, buzinas, ameaças e total desrespeito às pessoas que transitam a pé pela nossa cidade.
Mas mesmo nessa ilha da fantasia, não estamos completamente protegidos. E justamente os agentes de trânsito, que estão na ponta, vivenciando os conflitos diários do trânsito, que têm a chance de agir para mudar este panorama, fiscalizando e consequentemente educando as pessoas, demonstram total despreparo e desconhecimento - ou descumprimento voluntário - da lei.

Relatamos dois fatos curiosos neste domingo, que parecem antagônicos, mas demonstram a mesma inércia de um órgão presente nas ruas, mas ausente de espírito, ausente do espírito de mudança.

Praça Tiradentes: cidadania direta na terra de ninguém.
Fato 1
Vários carros estavam estacionados sobre a Praça Tiradentes. Após a denúncia de um cidadão - e está prática está aumentando, ainda bem! -, a CTTU compareceu e multou todos os veículos. O lado ruim da história é que a praça fica entre a prefeitura e a Avenida Rio Branco. Difícil acreditar que outros guardas da CTTU não passaram por ali e ignoraram a infração. Logo apareceram proprietários justificando que não tinham onde estacionar, os mesmos que quando viajam para a Europa ou Estados Unidos não estacionam em praças por receio da fiscalização.

Fato 2
Depoimento de ciclista que tentou sensibilizar um guarda da CTTU sobre a situação dos pedestres na esquina da Avenida Rio Branco com a Avenida Cais do Apolo, a rua onde fica a Prefeitura do Recife.

"Chegando pela ciclofaixa pela ponte da Rio Branco, no Recife Antigo, vejo a cena de todos os dias. Quando o sinal está aberto para os carros na Cais do Apolo, pedestres não devem passar pois o semáforo está aberto para os carros que cruzam a faixa de pedestre. Quando abre para quem vem da ponte, os carros e ônibus entram à toda velocidade para a esquerda, não respeitando o artigo 214, inciso V do CTB (infração grave), que os obriga a dar preferência ao pedestre na conversão.
Mas neste domingo, havia um agente da CTTU na esquina. Fui até ele pedir que ele ajudasse os pedestres que tentavam sem sucesso atravessar do Banco do Brasil para a ponte.
- Boa tarde, seu guarda. Veja ali do outro lado da rua três pedestres que não conseguem atravessar na faixa porque os ônibus e carros estão virando à esquerda sem parar.
>>> Veja bem, eles deveriam atravessar a primeira metade quando este semáf...
- Mas de acordo com o CTB os veículos têm que parar na conversão para dar a preferência ao pedestre.
>>> Não, não. Se eles pararem vai parar todo o trânsito e causar engarrafamento. Não devem parar não. Deveria ter um semáforo para pedestres ali.
- Não importa o engarrafamento, o pedestre tem prioridade! E não vai ter semáforo em todas as esquinas da cidade. Nessa esquina não tem e eles deveriam parar.
>>> Não é assim que funciona.
- Boa tarde, seu guarda.

Desisti e fui embora."

É ótimo ter parte do Recife Antigo fechado para a circulação de veículos por um domingo no mês. Mas no resto da cidade inteira e no resto do mês inteiro, a cidade não pode continuar funcionando para poucos, só para quem tem carro. Essa mesma realidade temos no percurso da ciclofaixa, no qual a velocidade permitida aos domingos é de 40km/h, demonstrando que a Prefeitura sabe que 60km/h não é uma velocidade segura para o ambiente urbano. Durante os outros dias da semana, não temos cones, e a velocidade sobe pra 60km/h. O que a Prefeitura tem a dizer aos ciclistas e pedestres que usam a cidade de segunda a sábado sem cones? O que justifica essa velocidade? Certamente a mesma mentalidade do agente da CTTU em sua frase "Se eles pararem vai parar todo o trânsito e causar engarrafamento". Para todo o resto para que não parem os carros.

Queremos um Recife inclusivo. O trânsito é a vitrine onde a Prefeitura tem a chance de demonstrar que quer fazer uma cidade inteira pra todos, e não apenas uma Ilha da Fantasia, e que como podemos ver, nem é fantasia assim, já que nem mesmo no Recife Antigo a CTTU consegue ou quer conter o avanço dos carros sobre as pessoas e os espaços destinados a elas. Não foi em 2013. Esperamos que em 2014 haja a verdadeira mudança que precisamos e queremos.
Muda, Prefeitura! Muda, CTTU! Muda Recife!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Blindei meu carro pra morrer em segurança

Eu não quero morrer de tiro.



Meu sonho é morrer dentro do conforto do meu carro, a 130km/h, no alto do Viaduto Capitão Temudo, vendo as luzes de Natal do Shopping RioMar. Bonito bragarái! Por isso blindei meu carro. Foi caro pra cacete, mas tem gente que paga uma nota no caixão, eu paguei na blindagem. Vou dever o condomínio uns meses, mas depois faço um acordo e pago sem multa, se ainda estiver vivo. Mas tinha que fazer essa blindagem. A turma toda já fez, fui o último! E vai que antes de chegar lá em cima do Temudo, tô no sinal da Agamenon com a Abidias de Carvalho e alguém atira contra o meu carro? Não! Eu tenho controle sobre minha vida! Comprei o carro justamente pra ter liberdade. E decidi que quero morrer de acidente de automóvel. Isso sim é morte de quem se destaca na sociedade. Mas o trânsito é uma loteria. A vantagem é que em Recife as chances de ganhar na loteria são maiores. Yeah!

Com um pouco de sorte, em vez de morrer, mato alguns antes. Quem sabe atropelo um ciclista, um pedestre, ou acerto um motoqueiro que fura um sinal num cruzamento. Depois rola umas cestas básicas, uns danos contra terceiros, mas o seguro paga. E se não pagar, foda-se! Bafômetro nessas horas é lenda, nunca fazem. Assim adio mais uns dias minha provável morte no trânsito. Quero lá morrer de velho, de câncer, de AIDS? Isso é coisa de viado! Morrer de doença é coisa do tempo dos meus pais. Já era! Mas no alto do Temudão não tem cruzamento. Bem que poderia ter um cruzamentão com 6 faixas de cada lado, sinais rápidos, os favelados que moram embaixo só iriam ouvir as porradas. Quem sabe cai uns carros lá de vez em quando pra acabar com essas merdas de favelas. Não sei porque não expulsaram esses maloqueiros dali, certamente daria pra fazer um túnel, ou mesmo o meu tão sonhado viaduto cruzando o Temudão, vindo lááá da Via Mangue, com curvas suaves, pra chegar zunindo a 130km/h. E da Agamenon, cheia de viadutos sem nenhum cruzamento daqui uns anos, quem sabe, vem a galera chutada também. Quero ouvir o ronco do motor parar, vem o barulho da freiada e da pancada - é bonito demais! todo mundo vem logo saber o que foi! - e ver meu carro voando comigo dentro, girando 8 vezes seguidas, o som nas alturas, ar condicionado no máximo, não tem airbag que dê conta! Hehehe. Mas tem que ser quando eu quero. Porra de blitz! Vejo logo no Waze onde tem pra escapar. Se eu perco minha carteira de motorista, adeus meus planos!

E no outro dia? Que beleza... capa de jornal! ACIDENTE NO TEMUDO. Putaquiupariu... vou entrar pra história. Feliz demais com essa cidade. Só em Recife o cara consegue realmente fazer o que quiser na rua. CTTU e nada é a mesma coisa. A única vez que fui multado recorri e ganhei. Outras 7 ou 8 vezes dei o dinheiro do guaraná. E em último caso, a carta na manga "conheço o Secretário de Mobilidade, melhor não multar que vai feder pro teu lado". De tiro aqui só morre pobre. Raramente chega na gente essas broncas. Não tem stress. Tomo uma de leve e dirijo, passo na faixa de pedestre e
Crime ou acidente?
finjo que mem vejo. Dou uma aceleradinha pro liso correr. Comédia demais! Cruzamento engarrafado tem que passar logo pra não perder a vez. Se fechar, é só fazer cara de que não é comigo. Só na merda do engarrafamento que passa uns ciclistas filhos da puta arranhando meu retrovisor. Vontade que dá é de trancar um desses na curva e jogá-lo pra baixo do carro. "Juro que não vi!" Hauhuahau. Param logo com essa frescura de ciclofaixa. Vai pra Jaqueira, porra!

Inclusive, falei com um amigo ciclochato que eu tava querendo morrer dentro do carro e o mané me veio com esse gráfico de mortes no trânsito. Nunca fui muito bom dessas contas, inutilidade do cacete! Meu negócio sempre foi saber o preço da gasosa e pisar fundo. No gráfico, o sacana ainda incluiu a Nigéria pra tirar onda. Tô nem aí. Recife, segundo o mané, teve 38,2 mortes a cada 100mil habitantes em 2011. Me veio com um blá blá blá de que é mais fácil morrer no trânsito em Recife do que de tiro no Rio ou em Sampa. Conversa feia da gota!

Chega! Não aguento mais. Vou tomar duas latinhas e sair chutado no asfalto novo que colocaram na Zona Norte. É 150km/h no Temudão! Até oitentinha já dá pra fazer um estrago. Tenho que resolver isso logo. Querem acabar com minha felicidade. Recebi uma carta do banco. Virão buscar meu carro na segunda-feira.  PUTA MERDA! Desse fim de semana não passa!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Paul Walker: a morte de um símbolo da velocidade

Na noite deste último sábado de novembro, morreu um símbolo de uma geração marcada pela velocidade: Paul Walker, ator, 40 anos, era passageiro de um Porsche que se espatifou contra uma árvore e pegou fogo. Polícia suspeita - e imagino que vá se confirmar pelo estrago - que o veículo estava em alta velocidade.
Menos duas vidas
Paul tinha uma carreira brilhante. Começou novo fazendo comerciais e atingiu o sucesso com a série de filmes Velozes e Furiosos. Morre novo, e deixa uma filha de 15 anos. Mas não estamos falando de um ator qualquer. O seu maior sucesso, uma série de filmes sobre carros, mostra Paul como o mocinho anti-herói que vira herói, e que tem como principal habilidade dirigir muito acima das velocidades permitidas, e descumprindo todas as regras de trânsito. Curiosamente, em toda a série, o personagem de Paul nunca acerta um pedestre nem um ciclista. Nenhuma semelhança com a realidade é mera coincidência.

O filme, já pelo seu título Velozes e Furiosos, bebe da agressividade encontrada no trânsito em quase todo o mundo, e regurgita de volta para o seu público, esse desejo de velocidade, essa sensação maravilhosa - para uns - de impunidade e liberdade. Entretanto, em sociedade, a liberdade é fundamentada em limites para que não cerceie a liberdade de outros. Pedestres e ciclistas perdem cada vez mais espaço e se sentem cada vez mais acuados inseguros nas ruas, enquanto milhares de irresponsáveis aceleram em espaços públicos, ignorando os limites impostos por lei para a segurança da coletividade. Existe no motorista um sentimento de confiança em sua perícia, e o governo trabalha somente com as campanhas em torno da responsabilidade (ou respeito). Sobre a perícia, não é critério válido para esta permissão de ser veloz, não é à toa que o Detran não fornece Carteira Nacional de Habilitação (CNH) baseada na perícia em ser veloz. Existe carteira de motorista de acordo com o tipo de veículo,  que atesta que o motorista tem a habilidade de conduzir determinado tipo de veículo, sempre dentro dos limites da lei. Se considerarmos os grandes peritos em dirigir em velocidade, os pilotos de Fórmula 1, os mesmos dirigem em alta velocidade dentro de um circuito fechado com inúmeras regras de segurança, e mesmo assim são comuns os acidentes. Esses mesmos peritos de alto nível, têm a mesma CNH que qualquer mortal para conduzir seu veículo nas ruas das cidades, e as mesmas obrigações de respeito à velocidade. Portanto, a perícia não é um critério a ser considerado, apesar de muitos motoristas a declararem como motivo da licença pra ser veloz. A responsabilidade tem a mesma falha da perícia, é uma característica individual sem controle pelo Estado. Somos milhões de motoristas no Brasil, na Região Metropolitana de Recife, mais de um milhão. O Estado não pode contar com a perícia e a responsabilidade de todos. É função do Estado coibir o comportamento desses  supostos peritos velozes e irresponsáveis. Contra comportamentos nocivos individuais, regras para o coletivo têm que ser duramente impostas, com duras penas.

Entretanto, vivemos no país da indústria automobilística acima de tudo, uma opção política equivocada que traz inúmeras consequências econômicas, ambientais, sociais, de saúde pública, etc. Mas essa decisão não pode se traduzir na liberdade total do ato de dirigir. Essa ligação tem que ser cortada. 
Caubói da Marlboro, antes do câncer
Comparativamente, temos no Brasil um vilão extremamente atacado pelo Ministério da Saúde, com sua imagem destruída, que mal aparece em novelas, propagandas na TV, ou revistas. O cigarro paga impostos altíssimos e não se contesta a nocividade do mesmo para a saúde do indivíduo e em menor proporção para as pessoas ao seu redor. Foi proibido em aviões, bares, restaurantes, exibe em suas embalagens imagens e mensagens sobre os danos à saúde. O caubói da Marlboro, morreu de câncer em 1992. Em 2000, seu irmão cedeu ao governo brasileiro a imagem do caubói para a campanha "Sabe aquele caubói da propaganda do cigarro? Morreu de câncer. Cigarro faz mal até na propaganda."
O carro é nocivo, mata mais de 40.000 pessoas por ano no Brasil (uma epidemia!), de todas as idades e classes. Muitas vezes tira a vida de quem nunca dirigiu e está apenas a caminho de casa. Entretanto seus impostos são constantemente reduzidos, seu combustível é subsidiado, sua propaganda está presente em todos os meios o tempo inteiro, associada à sucesso, liberdade, potência; as prefeituras exigem vagas para automóveis nos estabelecimentos, e a maioria do espaço da cidade é destinada ao seu uso e guarda.

Paul Walker foi o caubói moderno do automóvel. Infelizmente servirá de exemplo  - assim esperamos - da forma mais trágica, com sua vida, assim como o caubói da Marlboro. Paul não morreu de overdose, de AIDS, nem de câncer no pulmão, morreu dentro de um carro em alta velocidade. Por sorte o carro onde estava não acertou alguém na calçada, pedalando ou em outro carro. Está na hora de reconhecer isso como uma questão de saúde e de segurança pública também. Morrer em acidente de carro não é uma fatalidade! Não foi acidente!