sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O culpado é o ciclista!

Mais um ciclista foi atropelado por um ônibus no Recife, na manhã desta quarta-feira. Desta vez, o fato ocorreu na recém inaugurada faixa azul da Avenida Mascarenhas de Moraes, exclusiva para ônibus. Como de costume, declaram a vítima como único culpado.



Sem a devida investigação do ocorrido não é possível saber por completo a história! Não dá pra saber se o ciclista realmente entrou de repente na faixa de ônibus. No entanto é fato que, em linhas gerais, ninguém quer se machucar, ninguém é terrorista suicida no trânsito e ninguém quer morrer; da mesma forma que ninguém quer machucar ou matar outra pessoa no trânsito. Não! Não dá pra saber, espero que tenham câmeras de segurança no local para apurar melhor a responsabilidade de cada um. Mas André Pasqualini foi atrás da história e ouviu do próprio atropelado:

“
Aquela faixa é muito estreita e eu estava no cantinho como sempre, daí o ônibus tentou me ultrapassar, passou muito perto até que a lateral dele bateu no meu guidão e eu caí, então a roda do ônibus passou por cima da minha perna”


Tanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) quanto a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) dizem claramente de quem é a prioridade. Lá está escrito que o MAIOR deve sempre PROTEGER o MENOR, e que os órgãos de trânsito DEVEM PROVER, PROJETAR e PENSAR infraestrutura para os CICLISTAS e COM PREFERÊNCIAS SOBRE OS MOTORIZDOS! A Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) projetou no local uma nova infraestrutura e não deu nenhuma preferência ao ciclista. Na verdade, em reuniões entre representantes da Ameciclo e a CTTU, foi constatado que eles realmente colocam o transporte coletivo MOTORIZADO à frente dos NÃO MOTORIZADOS, contrariando a Lei FEDERAL (PNMU). Então, é mais do que esperado que quando você projeta algo para o motorizado sem antes resolver a questão do ciclista, você acaba por gerar potenciais atropelamentos e colisões. Está aí o resultado! A CTTU fez a faixa azul e não indicou (não tem indicado em canto algum) onde o ciclista deve transitar. Disse em nota no jornal que não deveria ir para a faixa azul, pois seria perigoso.


Ótimo, CTTU! E VAI POR ONDE??? Informe ao ciclista como! E não é com campanha não, é sinalizando mesmo. Um ciclista relatou que transitou pela Mascarenhas e não sabia por onde ir. Na esquerda os carros voavam, ao lado da faixa de ônibus eles buzinavam como loucos... Agressões e agressões! Se na calçada e no canteiro é proibido, não há ciclovia e o bordo direito foi retirado. Onde transitar? A faixa de ônibus é o que sobra. É melhor ter um, dois, três ônibus cruzando com você no percurso inteiro do que mil carros te ameaçando.


A bicicleta utilizar a faixa exclusiva de ônibus não é proibido pelo CTB! O artigo 184 coloca a infração que pode ser resumida como “Transitar com veículo na faixa da direita se ela estiver regulamentada para outro tipo de veículo”, mas, claramente é um dos erros que o próprio legislador do CTB comete quando esquece que determinou que bicicleta era um veículo. Esse artigo de infração não deve se sobrepor aos artigos que regem as permissas do código como um todo. Vamos lá:
O artigo 58 OBRIGA o ciclista a ANDAR nos BORDOS na inexistência de infraestrutura para ele destinada e COM PREFERÊNCIA SOBRE OS MOTORIZADOS. Se ele for transitar na via, deverá fazer nas MARGENS da pista. E aí, quando se lê o artigo 57 para percebe-se isso, pois este obriga os ciclomotores a andarem na direita e o parágrafo único diz que na existência de uma faixa exclusiva na direita, eles devem ir para a adjacente a esta. Fica bem claro que a existência da faixa azul não cria um bordo novo e portanto o ciclista vai ter que andar nessa faixa, e que a limitação imposta no artigo 57 não foi propositadamente repetida no 58. O legislador percebeu o risco que é andar no meio da via ou numa faixa de alta velocidade ou ainda achoU que o código seria seguido pelas autoridades de trânsito e que a estrutura para o ciclista iria ser criada previamente. Claramente, o artigo 184 que proibiria  o ciclista de andar na faixa de ônibus não foi escrito pensando nisto. O que chegamos em...


Em outros países, o compartilhamento é possível. No Recife, o ciclista tem que usar as paralelas.

NÃO HÁ PLACAS SINALIZADORAS QUE INDIQUEM QUE É PROIBIDO AOS CICLISTAS TRANSITAR NA VIA. Então não é para usar as vias paralelas obrigatoriamente, como dito por pessoas dos órgãos de trânsito e gestores da cidade! O ciclista é livre para escolher onde deve transitar, a não ser que haja uma proibição expressa e bem sinalizada.


Portanto chegamos no impasse:
De quem é a CULPA? A culpa é do ESTADO (enquanto ente, seja em que esfera for) que não projetou as vias PRIMEIRO - conforme LEI FEDERAL - para os NÃO MOTORIZADOS, que não indicou e sinalizou devidamente ao ciclista onde ele deveria transitar, que não educou para o trânsito, desde o início e de maneira correta, os motoristas, muito menos o ciclista, ou qualquer cidadão desde a escola. A responsabilidade é do estado que é carrocrata!
De quem é a CULPA? A culpa é NOSSA enquanto sociedade! Nossa de permitirmos esse tipo de coisa acontecer repetitivamente, de não pressionarmos o estado a tomar as corretas providências, de elegermos quem elegemos e de pouco fiscalizar os eleitos.
De quem é a CULPA? Das empresas de ônibus que colocam seus motoristas para trabalharem como condenados, estressados, e cobram deles excessivas velocidades em suas voltas.
De quem é a CULPA? Do motorista de ônibus, que não tomou conta do menor, que não conseguiu evitar uma colisão, que não reduziu ao ver perigo, que não respeitou o 1,5m de distância ao passar pelo ciclista, que utiliza uma máquina pesada e cede à pressão do patrão.
De quem é a CULPA? Não! Não é do ciclista, excluído e marginalizado, sem educação e sem infraestrutura, sem conhecer o código, sem poder transitar decentemente, sem nada: UM MARGINAL. À margem da sociedade que o exclui.


Mas, é o que todos decretam: O culpado é o ciclista! Ele é culpado por estar nas ruas! Tem culpa de ser humano, pessoa, mero mortal. Tem culpa de não engarrafar, não poluir, não matar, não estar carregando uma tonelada consigo. Você é ciclista? Então VOCÊ É CULPADO, MARGINAL! É isso!

Ciclista, sua CULPA É EXISTIR!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A Ilha da Fantasia




"Venham para a Ilha da Fantasia!"

Praça do Marco Zero, 29 de dezembro de 2013.
No último domingo do mês a Prefeitura do Recife fecha várias ruas do Recife Antigo para dar um espaço para as pessoas usarem a rua, conviverem, usarem a cidade da forma como deveria ser todos os dias, afinal, a cidade não é um conglomerado de ruas, pontes e viadutos, ela é um espaço de convivência e é do poder público que deve vir a ajuda para a transformação deste tipo de espaço. Numa cidade onde a qualidade do asfalto é melhor que das calçadas, onde o semáforo fica aberto 8 minutos para os veículos e 15 segundos para os pedestres, onde se estaciona em praças, em cima de calçadas, em ciclofaixas, na frente de rampas de deficientes, em vagas de deficientes, é o agente de trânsito que está na ponta e que deveria ser o instrumento de equilíbrio dessa relação de uso do espaço público pelas pessoas e pelos veículos. O Recife Antigo se tornou uma espécie de ilha da fantasia, onde falta somente jogarem pétalas de rosas e tocarem músicas de boas vindas quando entramos na ilha. Ao sairmos de lá, voltamos ao mundo real de faixas de pedestre apagadas, buzinas, ameaças e total desrespeito às pessoas que transitam a pé pela nossa cidade.
Mas mesmo nessa ilha da fantasia, não estamos completamente protegidos. E justamente os agentes de trânsito, que estão na ponta, vivenciando os conflitos diários do trânsito, que têm a chance de agir para mudar este panorama, fiscalizando e consequentemente educando as pessoas, demonstram total despreparo e desconhecimento - ou descumprimento voluntário - da lei.

Relatamos dois fatos curiosos neste domingo, que parecem antagônicos, mas demonstram a mesma inércia de um órgão presente nas ruas, mas ausente de espírito, ausente do espírito de mudança.

Praça Tiradentes: cidadania direta na terra de ninguém.
Fato 1
Vários carros estavam estacionados sobre a Praça Tiradentes. Após a denúncia de um cidadão - e está prática está aumentando, ainda bem! -, a CTTU compareceu e multou todos os veículos. O lado ruim da história é que a praça fica entre a prefeitura e a Avenida Rio Branco. Difícil acreditar que outros guardas da CTTU não passaram por ali e ignoraram a infração. Logo apareceram proprietários justificando que não tinham onde estacionar, os mesmos que quando viajam para a Europa ou Estados Unidos não estacionam em praças por receio da fiscalização.

Fato 2
Depoimento de ciclista que tentou sensibilizar um guarda da CTTU sobre a situação dos pedestres na esquina da Avenida Rio Branco com a Avenida Cais do Apolo, a rua onde fica a Prefeitura do Recife.

"Chegando pela ciclofaixa pela ponte da Rio Branco, no Recife Antigo, vejo a cena de todos os dias. Quando o sinal está aberto para os carros na Cais do Apolo, pedestres não devem passar pois o semáforo está aberto para os carros que cruzam a faixa de pedestre. Quando abre para quem vem da ponte, os carros e ônibus entram à toda velocidade para a esquerda, não respeitando o artigo 214, inciso V do CTB (infração grave), que os obriga a dar preferência ao pedestre na conversão.
Mas neste domingo, havia um agente da CTTU na esquina. Fui até ele pedir que ele ajudasse os pedestres que tentavam sem sucesso atravessar do Banco do Brasil para a ponte.
- Boa tarde, seu guarda. Veja ali do outro lado da rua três pedestres que não conseguem atravessar na faixa porque os ônibus e carros estão virando à esquerda sem parar.
>>> Veja bem, eles deveriam atravessar a primeira metade quando este semáf...
- Mas de acordo com o CTB os veículos têm que parar na conversão para dar a preferência ao pedestre.
>>> Não, não. Se eles pararem vai parar todo o trânsito e causar engarrafamento. Não devem parar não. Deveria ter um semáforo para pedestres ali.
- Não importa o engarrafamento, o pedestre tem prioridade! E não vai ter semáforo em todas as esquinas da cidade. Nessa esquina não tem e eles deveriam parar.
>>> Não é assim que funciona.
- Boa tarde, seu guarda.

Desisti e fui embora."

É ótimo ter parte do Recife Antigo fechado para a circulação de veículos por um domingo no mês. Mas no resto da cidade inteira e no resto do mês inteiro, a cidade não pode continuar funcionando para poucos, só para quem tem carro. Essa mesma realidade temos no percurso da ciclofaixa, no qual a velocidade permitida aos domingos é de 40km/h, demonstrando que a Prefeitura sabe que 60km/h não é uma velocidade segura para o ambiente urbano. Durante os outros dias da semana, não temos cones, e a velocidade sobe pra 60km/h. O que a Prefeitura tem a dizer aos ciclistas e pedestres que usam a cidade de segunda a sábado sem cones? O que justifica essa velocidade? Certamente a mesma mentalidade do agente da CTTU em sua frase "Se eles pararem vai parar todo o trânsito e causar engarrafamento". Para todo o resto para que não parem os carros.

Queremos um Recife inclusivo. O trânsito é a vitrine onde a Prefeitura tem a chance de demonstrar que quer fazer uma cidade inteira pra todos, e não apenas uma Ilha da Fantasia, e que como podemos ver, nem é fantasia assim, já que nem mesmo no Recife Antigo a CTTU consegue ou quer conter o avanço dos carros sobre as pessoas e os espaços destinados a elas. Não foi em 2013. Esperamos que em 2014 haja a verdadeira mudança que precisamos e queremos.
Muda, Prefeitura! Muda, CTTU! Muda Recife!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Blindei meu carro pra morrer em segurança

Eu não quero morrer de tiro.



Meu sonho é morrer dentro do conforto do meu carro, a 130km/h, no alto do Viaduto Capitão Temudo, vendo as luzes de Natal do Shopping RioMar. Bonito bragarái! Por isso blindei meu carro. Foi caro pra cacete, mas tem gente que paga uma nota no caixão, eu paguei na blindagem. Vou dever o condomínio uns meses, mas depois faço um acordo e pago sem multa, se ainda estiver vivo. Mas tinha que fazer essa blindagem. A turma toda já fez, fui o último! E vai que antes de chegar lá em cima do Temudo, tô no sinal da Agamenon com a Abidias de Carvalho e alguém atira contra o meu carro? Não! Eu tenho controle sobre minha vida! Comprei o carro justamente pra ter liberdade. E decidi que quero morrer de acidente de automóvel. Isso sim é morte de quem se destaca na sociedade. Mas o trânsito é uma loteria. A vantagem é que em Recife as chances de ganhar na loteria são maiores. Yeah!

Com um pouco de sorte, em vez de morrer, mato alguns antes. Quem sabe atropelo um ciclista, um pedestre, ou acerto um motoqueiro que fura um sinal num cruzamento. Depois rola umas cestas básicas, uns danos contra terceiros, mas o seguro paga. E se não pagar, foda-se! Bafômetro nessas horas é lenda, nunca fazem. Assim adio mais uns dias minha provável morte no trânsito. Quero lá morrer de velho, de câncer, de AIDS? Isso é coisa de viado! Morrer de doença é coisa do tempo dos meus pais. Já era! Mas no alto do Temudão não tem cruzamento. Bem que poderia ter um cruzamentão com 6 faixas de cada lado, sinais rápidos, os favelados que moram embaixo só iriam ouvir as porradas. Quem sabe cai uns carros lá de vez em quando pra acabar com essas merdas de favelas. Não sei porque não expulsaram esses maloqueiros dali, certamente daria pra fazer um túnel, ou mesmo o meu tão sonhado viaduto cruzando o Temudão, vindo lááá da Via Mangue, com curvas suaves, pra chegar zunindo a 130km/h. E da Agamenon, cheia de viadutos sem nenhum cruzamento daqui uns anos, quem sabe, vem a galera chutada também. Quero ouvir o ronco do motor parar, vem o barulho da freiada e da pancada - é bonito demais! todo mundo vem logo saber o que foi! - e ver meu carro voando comigo dentro, girando 8 vezes seguidas, o som nas alturas, ar condicionado no máximo, não tem airbag que dê conta! Hehehe. Mas tem que ser quando eu quero. Porra de blitz! Vejo logo no Waze onde tem pra escapar. Se eu perco minha carteira de motorista, adeus meus planos!

E no outro dia? Que beleza... capa de jornal! ACIDENTE NO TEMUDO. Putaquiupariu... vou entrar pra história. Feliz demais com essa cidade. Só em Recife o cara consegue realmente fazer o que quiser na rua. CTTU e nada é a mesma coisa. A única vez que fui multado recorri e ganhei. Outras 7 ou 8 vezes dei o dinheiro do guaraná. E em último caso, a carta na manga "conheço o Secretário de Mobilidade, melhor não multar que vai feder pro teu lado". De tiro aqui só morre pobre. Raramente chega na gente essas broncas. Não tem stress. Tomo uma de leve e dirijo, passo na faixa de pedestre e
Crime ou acidente?
finjo que mem vejo. Dou uma aceleradinha pro liso correr. Comédia demais! Cruzamento engarrafado tem que passar logo pra não perder a vez. Se fechar, é só fazer cara de que não é comigo. Só na merda do engarrafamento que passa uns ciclistas filhos da puta arranhando meu retrovisor. Vontade que dá é de trancar um desses na curva e jogá-lo pra baixo do carro. "Juro que não vi!" Hauhuahau. Param logo com essa frescura de ciclofaixa. Vai pra Jaqueira, porra!

Inclusive, falei com um amigo ciclochato que eu tava querendo morrer dentro do carro e o mané me veio com esse gráfico de mortes no trânsito. Nunca fui muito bom dessas contas, inutilidade do cacete! Meu negócio sempre foi saber o preço da gasosa e pisar fundo. No gráfico, o sacana ainda incluiu a Nigéria pra tirar onda. Tô nem aí. Recife, segundo o mané, teve 38,2 mortes a cada 100mil habitantes em 2011. Me veio com um blá blá blá de que é mais fácil morrer no trânsito em Recife do que de tiro no Rio ou em Sampa. Conversa feia da gota!

Chega! Não aguento mais. Vou tomar duas latinhas e sair chutado no asfalto novo que colocaram na Zona Norte. É 150km/h no Temudão! Até oitentinha já dá pra fazer um estrago. Tenho que resolver isso logo. Querem acabar com minha felicidade. Recebi uma carta do banco. Virão buscar meu carro na segunda-feira.  PUTA MERDA! Desse fim de semana não passa!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Paul Walker: a morte de um símbolo da velocidade

Na noite deste último sábado de novembro, morreu um símbolo de uma geração marcada pela velocidade: Paul Walker, ator, 40 anos, era passageiro de um Porsche que se espatifou contra uma árvore e pegou fogo. Polícia suspeita - e imagino que vá se confirmar pelo estrago - que o veículo estava em alta velocidade.
Menos duas vidas
Paul tinha uma carreira brilhante. Começou novo fazendo comerciais e atingiu o sucesso com a série de filmes Velozes e Furiosos. Morre novo, e deixa uma filha de 15 anos. Mas não estamos falando de um ator qualquer. O seu maior sucesso, uma série de filmes sobre carros, mostra Paul como o mocinho anti-herói que vira herói, e que tem como principal habilidade dirigir muito acima das velocidades permitidas, e descumprindo todas as regras de trânsito. Curiosamente, em toda a série, o personagem de Paul nunca acerta um pedestre nem um ciclista. Nenhuma semelhança com a realidade é mera coincidência.

O filme, já pelo seu título Velozes e Furiosos, bebe da agressividade encontrada no trânsito em quase todo o mundo, e regurgita de volta para o seu público, esse desejo de velocidade, essa sensação maravilhosa - para uns - de impunidade e liberdade. Entretanto, em sociedade, a liberdade é fundamentada em limites para que não cerceie a liberdade de outros. Pedestres e ciclistas perdem cada vez mais espaço e se sentem cada vez mais acuados inseguros nas ruas, enquanto milhares de irresponsáveis aceleram em espaços públicos, ignorando os limites impostos por lei para a segurança da coletividade. Existe no motorista um sentimento de confiança em sua perícia, e o governo trabalha somente com as campanhas em torno da responsabilidade (ou respeito). Sobre a perícia, não é critério válido para esta permissão de ser veloz, não é à toa que o Detran não fornece Carteira Nacional de Habilitação (CNH) baseada na perícia em ser veloz. Existe carteira de motorista de acordo com o tipo de veículo,  que atesta que o motorista tem a habilidade de conduzir determinado tipo de veículo, sempre dentro dos limites da lei. Se considerarmos os grandes peritos em dirigir em velocidade, os pilotos de Fórmula 1, os mesmos dirigem em alta velocidade dentro de um circuito fechado com inúmeras regras de segurança, e mesmo assim são comuns os acidentes. Esses mesmos peritos de alto nível, têm a mesma CNH que qualquer mortal para conduzir seu veículo nas ruas das cidades, e as mesmas obrigações de respeito à velocidade. Portanto, a perícia não é um critério a ser considerado, apesar de muitos motoristas a declararem como motivo da licença pra ser veloz. A responsabilidade tem a mesma falha da perícia, é uma característica individual sem controle pelo Estado. Somos milhões de motoristas no Brasil, na Região Metropolitana de Recife, mais de um milhão. O Estado não pode contar com a perícia e a responsabilidade de todos. É função do Estado coibir o comportamento desses  supostos peritos velozes e irresponsáveis. Contra comportamentos nocivos individuais, regras para o coletivo têm que ser duramente impostas, com duras penas.

Entretanto, vivemos no país da indústria automobilística acima de tudo, uma opção política equivocada que traz inúmeras consequências econômicas, ambientais, sociais, de saúde pública, etc. Mas essa decisão não pode se traduzir na liberdade total do ato de dirigir. Essa ligação tem que ser cortada. 
Caubói da Marlboro, antes do câncer
Comparativamente, temos no Brasil um vilão extremamente atacado pelo Ministério da Saúde, com sua imagem destruída, que mal aparece em novelas, propagandas na TV, ou revistas. O cigarro paga impostos altíssimos e não se contesta a nocividade do mesmo para a saúde do indivíduo e em menor proporção para as pessoas ao seu redor. Foi proibido em aviões, bares, restaurantes, exibe em suas embalagens imagens e mensagens sobre os danos à saúde. O caubói da Marlboro, morreu de câncer em 1992. Em 2000, seu irmão cedeu ao governo brasileiro a imagem do caubói para a campanha "Sabe aquele caubói da propaganda do cigarro? Morreu de câncer. Cigarro faz mal até na propaganda."
O carro é nocivo, mata mais de 40.000 pessoas por ano no Brasil (uma epidemia!), de todas as idades e classes. Muitas vezes tira a vida de quem nunca dirigiu e está apenas a caminho de casa. Entretanto seus impostos são constantemente reduzidos, seu combustível é subsidiado, sua propaganda está presente em todos os meios o tempo inteiro, associada à sucesso, liberdade, potência; as prefeituras exigem vagas para automóveis nos estabelecimentos, e a maioria do espaço da cidade é destinada ao seu uso e guarda.

Paul Walker foi o caubói moderno do automóvel. Infelizmente servirá de exemplo  - assim esperamos - da forma mais trágica, com sua vida, assim como o caubói da Marlboro. Paul não morreu de overdose, de AIDS, nem de câncer no pulmão, morreu dentro de um carro em alta velocidade. Por sorte o carro onde estava não acertou alguém na calçada, pedalando ou em outro carro. Está na hora de reconhecer isso como uma questão de saúde e de segurança pública também. Morrer em acidente de carro não é uma fatalidade! Não foi acidente!


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A prisão dos pedestres

Dilma vetou um projeto de lei que obrigava a colocação de faixas de pedestres próximo a escolas públicas e privadas. O PL colocava que deveria-se ter uma faixa de pedestres a pelo menos 1km das escolas. Independente das razões que levaram ao veto, defendi no momento que essas faixas não seriam bem vindas em qualquer localidade. Isso porque em ruas de pouco fluxo motorizado, as faixas podem servir de prisão para os pedestres que passam.


- Mas, a faixa é para a segurança do pedestre, e…


Calma, eu explico! Em pequenas cidades do interior ou em ruas de bairro com baixo fluxo e velocidade, os pedestres tomam a liberdade de atravessar em qualquer ponto. Cabe, como descreve o código, aos veículos tomarem conta da incolumidade peatonal. No momento da colocação da faixa, obriga-se - pelo menos legalmente - ao pedestre a atravessar naquele ponto - se estiver a até 50m dele (artigo 69 do CTB). Por isso, defendemos a transformação das ruas em espaços de convívio pacífico, que, a depender da localidade, não necessitarão de faixas para a travessia, gozando de ampla mobilidade e total preferência.


Pedestres são os mais frágeis das ruas e acabam perdendo sua preferência de travessia e uso total do espaço público em detrimento de veículos motorizados que passam a altas e mortíferas velocidades. No Rio de Janeiro, fecharam parte da orla para o uso apenas de não motorizados. Era um caos de pessoas nos mais diferentes modais, transitando de forma respeitosa. Não houve um choque sequer entre pedestres, ciclistas, skatistas, patinadores e outros com modais super-esquisitos. Não havia nenhuma preocupação de alinhamento das pessoas, sendo que elas pareciam partículas de gases andando e correndo nos mais diversos ritmos e nas mais diversas direções.



Então, ao pedestre e ao trânsito diário, regras e prisões são impostas para que outros modais possam conviver em mais alta velocidade. Isso parece ser a síntese da nossa forma de se deslocar: restringimos as pessoas para que outras passem com sua pressa com suas máquinas mortíferas. Até onde isso é aceitável é que devemos discutir, pois já passou do nível do aceitável há muito tempo!


No Recife, podemos dizer que não existem faixas de pedestres! Na verdade, só existe uma: a que fica entre o Shopping Plaza e o Hiperbompreço Casa Forte. As outras, quando estão pintadas, parecem ser mera obra de arte nas ruas, já que os motoristas passam por elas e não dão a devida preferência aos pedestres. Aproveitam do peso de seus veículos para impor a paralização e a submissão total dos pedestres. Então, antes de ser um refúgio de segurança e garantia de atravessar, as faixas passam a ser meras pinturas alegóricas e de humilhação a quem espera para chegar ao outro lado.


Como quem desejar melhorar essa situação, as autoridades colocam semáforos de pedestres. Entretanto, mais uma vez, a preferência é dada aos automotores. Os semáforos demoram 2, 5 ou 8 minutos para fechar, acumulando grandes quantidades de pessoas. É uma prisão de segurança máxima! Um teste de paciência. Um afronta a prioridade legalmente estabelecida. Um recado nos é dado: a rua é dos carros, saia daqui! Os sinais de pedestres deveriam demorar um tempo ínfimo (para não dizer: “tem que fechar exatamente após o pressionar do botão”). Isso! Tão pequeno que garantisse a travessia imediata do pedestre, e, portanto, sua preferência sobre todos os modais.


A lógica disso é tão clara que chega a ser irrefutável! Ora, se não há faixas o pedestre tem o direito e a preferência de atravessar a rua em qualquer local; se faixas são colocadas, os veículos devem parar assim que um pedestre se aproxima para atravessá-las, mas, por outro lado, o pedestre perde a preferência de atravessar em qualquer ponto; e, se um semáforo é colocado, o pedestre perde a preferência pela terceira vez por ser obrigado a esperá-lo. Então, dessa forma, o modal prioritário perde por consecutivas vezes a preferência.


Claro que todos esses elementos jogam o pedestre para um lado tão oprimido que eles tendem a cometer as mais diversas infrações, já que seguir o correto não é garantia de conforto ou mobilidade justa e sustentável. E então, vem a autoridade de trânsito local (sim, a CTTU) e escreve em seu Twitter que o pedestre deve dar preferência aos automotores.





A cidade está doente e o estado parece não dar um indicativo de que uma bonança vem por aí. Estamos caminhando para uma morte tão certa quanto a dos 250 mil pedestres que morreram atropelados no Brasil de 1996 a 2011.


É hora de mudar! Pedestres e ciclistas, convocamos vocês! Tomem esta cidade! A cidade é sua! A cidade é das pessoas! Libertem-se destes ternos de vidro costurados à parafuso e reclamem diariamente a SUA cidade!


BÔNUS: Na Alemanha, onde a indústria automobilística reina, mas ainda se consegue alguma mobilidade para as pessoas, colocou-se para os pedestres esperarem um joguinho de videogame (com a pessoa que está no outro lado). 

Tentam entreter o pedestre para que ele esqueça que, se estivesse em Copenhague, o semáforo abriria para ele na hora que se aproximassem. Divirta-se e aliene-se.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

A ditadura dos bípedes

Nesta terça-feira, 21 de outubro, a Folha de São Paulo publicou matéria informando sobre a decisão da Prefeitura da Cidade de São Paulo, de reduzir as velocidades dos veículos motorizados no centro: 40km/h para os carros e 50km/h para os ônibus. É gratificante ver a maior cidade do país, onde as mortes no trânsito estavam se tornando algo cultural, beirando o aceitável, uma iniciativa de redução de velocidades.Como podemos ver no quadro abaixo, é um avanço, mas ainda não é o objetivo. No mundo inteiro, milhares de cidades estão determinando Zonas 30 em certas áreas do perímetro urbano, humanizando o trânsito e transformando a cidade em um lugar de convivência. É uma importante etapa na retransformação das cidades em Walkable Cities (cidades caminháveis), característica que foi se perdendo desde o boom da indústria automobilística. Para quem está na base da pirâmide hierárquica do trânsito, - o sempre favorecido motorista -, a grande dificuldade sempre é perceber que base não é topo, e que quando falamos em fazer a cidade um ambiente mais seguro para as pessoas, pensamos principalmente no bípede no seu estado natural: o pedestre.

Mas ao terminar de ler a matéria, me deparei com um comentário que vai além de reacionário. O motorista - nada confirma essa situação, mas o tom de reclamação do comentário é uma boa pista do modal que utiliza - reclama de uma ditadura dos bípedes!


Bom, se o sujeito reclama de uma ditadura de bípedes, na condição de oprimido por esta ditadura, ele não se inclui na definição de bípede. Isto me fez lembrar do ótimo desenho do Pateta Motorista, momento sublime em que a Disney, como de costume, transforma seus animais em bípedes falantes, humanizando-os, só que neste desenho especificamente, ao deixar de ser bípede e ganhar rodas e motor, o personagem Senhor Walker - Senhor Caminhante! - se desumaniza completamente.



Me assusta pensar que alguém que dirige um veículo se esquece que ser motorista, pedestre, ou ciclista, é uma condição momentânea e não intrínseca da pessoa. Introjetam toda a informação de poder e status que é vendida junto aos automóveis, adestrados a pensar que o mundo da liberdade e da mobilidade foi conquistado. Claro... até tirar o carro da concessionária e chegar no engarrafamento mais próximo. Mas o que vemos nesse tipo de comentário vai além de como alguns motoristas se vêem no trânsito, e representa o modo como esse cidadão, portado de um objeto pesado e veloz, vê o mundo à sua volta e as outras pessoas. Ele reduz o homo sapiens à uma condição inferior a do homem motorizado, exatamente o contrário do que diz o CTB (e não o citado CNT no comentário); ele entende o pedestre como alguém menor no trânsito, com menos direitos. O que podemos perceber é uma interpretação do direito de ir e vir de forma estrita e egoísta: o meu ir e vir.

O titular do comentário só enxerga o ir e vir como ir e voltar ao seu destino da forma mais rápida possível. A segurança não é fator considerado em sua análise pois São Paulo, assim como Recife e tantas outras, tem tradicionalmente suas ruas preparadas para o trânsito de carros, de forma que quem está dentro do veículo não percebe a ameaça de toneladas em alta velocidade que este produz. Essa decisão administrativa do poder municipal de diminuir as velocidades é o início de uma preocupação com o a segurança de todas as pessoas que transitam pelas ruas da cidade, seja no asfalto ou na calçada.  

Para analisar a acusação do Senhor Walker paulistano de que estamos vivendo numa Ditadura de Bípedes, podemos descrever inúmeras informações como políticas públicas de mobilidade, gastos com mobilidade, divisão do espaço público, segurança no trânsito e vários outros critérios. Evitando me alongar muito, cito alguns fatos sobre Recife e São Paulo, cidades que conheço um pouco mais que as outras no quesito mobilidade:
- Em Recife, a obra de mobilidade mais cara da história da cidade (R$500 milhões) não é para bípedes,
Via Mangue: maior obra de mobilidade da história
do Recife. Engarrafará no primeiro dia de funcionamento.
tem uma ciclovia que joga o ciclista bípede para fora da cidade, e não contemplará nem mesmo os bípedes entuchados dentro de um curral ambulante sobre rodas (ônibus). Se chama Via Mangue e é para carros.
- Em Recife, São Paulo e na maioria das capitais do país, os carros ocupam 80% do espaço público, transportando menos de 30% das pessoas.
- Em São Paulo, historicamente as mortes por atropelamento de bípedes no trânsito gira em torno de 50%. Ainda não há histórico de atropelamentos causados por bípedes.
- Os semáforos para bípedes demoram para abrir e fecham rapidamente.
- Se há reclamação sobre a qualidade do asfalto, pode ter certeza que sempre a qualidade dele está melhor que a das calçadas.

Dizer que estamos numa ditadura dos bípedes é idiotice do mesmo tamanho que dizer que temos uma ditadura feminista, uma ditadura gay, ou uma ditadura dos negros. São minorias no sentido legal, partes da população com direitos suprimidos ou oprimidos, que estão obtendo pequenas conquistas a duras penas. E ao menor sinal de mudança, de pequenas melhorias conquistadas, são chamados de ditadores.

Não há dúvida de que estamos numa Carrocracia que começa no Legislativo, exigindo quantidade mínima de vagas de automóvel para estabelecimentos comerciais e residências; passa pelo Executivo em todas as esferas, dando subsídios à compra de automóveis, aliviando na fiscalização e na aplicação de multas, fornecendo obras que favorecem o uso do automóvel, dilacerando os espaços públicos destinados aos bípedes para a passagem dos velozes e furiosos; e termina no Judiciário, que trata os crimes de trânsito com brandura e displicência. Com um ambiente completamente favorável ao uso do automóvel, o caminho mais fácil ao bípede é cortar simbolicamente as próprias pernas e se encaixar entre 4 rodas sobre o seu controle. Ironicamente, este mesmo que sofria nas calçadas agora não suporta os ainda bípedes. O mesmo que diz que usa o carro porque o ônibus é ruim e andar de bicicleta é perigoso, mas não aceita perder espaço para faixas exclusivas de ônibus e ciclovias. É apaixonado pelas obras do metrô, porque gera mobilidade para os bípedes sem tirar o mínimo que seja dos 80% de um espaço já conquistado, considerado direito adquirido. É tipicamente o oprimido que conquistou sua parcela de poder e agora oprime.

Pode esperar, amigo. A ditadura dos bípedes vai chegar, é somente uma questão de tempo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Quem é o pedestre?


É aquele que sai de casa para andar pela sua cidade.
É o ser que se encontra entre o muro de 4 metros do prédio e o asfalto.
É o idoso que atravessa a rua correndo, enfrentando as dores do tempo, para não ser atropelado.
O pedestre é aquela pessoa que você sempre vê atravessando a faixa de pedestres correndo, com medo dos carros.

É aquele que passa no meio da parada de ônibus pois não há mais espaço na calçada.
É todos os cinco, doze ou oitenta subcidadãos que estão esperando por sete minutos uma luz verde acender para poderem atravessar seis faixas de avenida.
É também os cinco, doze ou oitenta cidadãos que não aguentam esperar sete minutos e invadem a avenida para chegar do outro lado. E ouvem as buzinas e freadas demonstrando o desprezo por tal revolta.
O pedestre é aquele que você vê atravessando a rua fora da faixa e acelera para ameaçá-lo, ensiná-lo a obedecer as leis de trânsito construídas apenas para facilitar a sua vida.

É também aquele que corre para atravessar a Praça do Parnamirim, mutilada para caber mais carros à sua volta.
Aquele que corre para atravessar a Domingos Ferreira, que tinha um canteiro central no seu início, e agora tem seis faixas de veículos em alta velocidade.
Aquele que corre para atravessar a Avenida Sul, no Cais José Mariano, enquanto os carros vêm em alta velocidade do viaduto das Cinco Pontas.
Aquele que corre jogando com a própria vida apenas para chegar do outro lado da rua, naquele ponto logo ali na sua frente, tão perto e ao mesmo tempo tão distante.

É aquele que respira a fumaça que você produz.
Que anda na calçada sem sombra porque a árvore foi tirada para você passar.
Aquele que sofre com o calor da cidade porque o asfalto se espalha por todo canto, tirando o verde e acumulando calor. Que sofre com o calor porque tem mais de 1 milhão de ares condicionados móveis jogando frio para dentro dos veículos e calor para a cidade.
Que tem sua roupa molhada e suja porque você passou perto dele, sobre uma poça, sem diminuir a velocidade.
Que tem que subir uma passarela para que você passe sem parar.
Que vê a cada dia seu caminho alterado, piorado, destruído, degradado, dificultado, complicado, pra você passar.

É aquele que vai andar pela cidade sem imaginar que você que está bebendo no bar, consultando no twitter e num aplicativo onde tem blitz, e vai arriscar a vida dele ao fugir da lei.
Aquele que morre porque você pisou demais no acelerador.
Que morre porque o órgão responsável pelo trânsito deixou você pisar demais no acelerador.
É aquele que está numa cadeira de rodas e não consegue acessar a Praça do Arsenal, a Praça do Derby, a Praça Flemming e várias outras praças e esquinas da cidade porque você estacionou seu veículo na frente de uma rampa de acesso para cadeirantes.

É o pedestre, aquele que está a caminho de casa, olha para a direita e vê do lado de dentro de um vidro, vinte pessoas correndo sem se mover, ohando em sua direção, sem percebê-lo. Ele olha para a frente e para trás na calçada e não vê ninguém.
É aquele que se sente inseguro porque a calçada está vazia de gente, enquanto a rua está cheia de veículos.

Prazer em conhecê-lo. Eu sou o pedestre, e não quero estar onde você está. Mas gostaria muito que você estivesse aqui ao meu lado.

Cezar Martins